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21/09/2014

Fernando pessoa Heterónimos : Álvaro de Campos

Álvaro de Campos



Álvaro de Campos surge quando Fernando Pessoa sente “um impulso para escrever”. O próprio Pessoa considera que Campos se encontra no «extremo oposto, inteiramente oposto, a Ricardo Reis”, apesar de ser como este um discípulo de Caeiro.
Campos é o “filho indisciplinado da sensação e para ele a sensação é tudo. O sensacionismo faz da sensação a realidade da vida e a base da arte. O eu do poeta tenta integrar e unificar tudo o que tem ou teve existência ou possibilidade de existir.
Este heterónimo aprende de Caeiro a urgência de sentir, mas não lhe basta a «sensação das coisas como são»: procura a totalização das sensações e das percepções conforme as sente, ou como ele próprio afirma “sentir tudo de todas as maneiras”.
Engenheiro naval e viajante, Álvaro de Campos é figurado “biograficamente” por Pessoa como vanguardista e cosmopolita, espelhando-se este seu perfil particularmente nos poemas em que exalta, em tom futurista, a civilização moderna e os valores do progresso.
Cantor do mundo moderno, o poeta procura incessantemente “sentir tudo de todas as maneiras”, seja a força explosiva dos mecanismos, seja a velocidade, seja o próprio desejo de partir. “Poeta da modernidade”, Campos tanto celebra, em poemas de estilo torrencial, amplo, delirante e até violento, a civilização industrial e mecânica, como expressa o desencanto do quotidiano citadino, adoptando sempre o ponto de vista do homem da cidade.
O drama de Álvaro Campos concretiza-se num apelo dilacerante entre o amor do mundo e da humanidade; é uma espécie de frustração total feita de incapacidade de unificar em si pensamento e sentimento, mundo exterior e mundo interior. Revela, como Pessoa, a mesma inadaptação à existência e a mesma demissão da personalidade íntegra., o cepticismo, a dor de pensar e a nostalgia da infância.

 

Biografia

·        Nasce em Tavira, em 1890
·        Estuda engenharia mecânica e naval na Escócia
·        “Filho indisciplinado da sensação e para ele a sensação é tudo. O sensacionismo faz da sensação a realidade da vida e a base da arte.”
·        “Sentir tudo de todas as maneiras”
·        Vanguardista e cosmopolita
·        Único heterónimo que comparticipa da vida extra literária de Fernando Pessoa heterónimo


Fases

     Primeira – decadentismo (1914)
Eprime o tédio, o cansaço e a necessidade de novas sensações (“Opiário”); o decadentismo surge como uma atitude estética finissecular que exprime o tédio, o enfado, a náusea, o cansaço, o abatimento e a necessidade de novas sensações. Traduz a falta de um sentido para a vida e a necessidade de fuga à monotonia. Com rebuscamento, preciosismo, símbolos e imagens apresenta-se marcado pelo Romantismo e pelo Simbolismo.
·       Tédio, cansaço, necessidade de novas sensações
·       Falta de um sentido para a vida
·       Romantismo e simbolismo
·       Nostalgia
·       Saturação
·       Embriaguez do ópio
·       Horror à vida
·       Realismo satírico
·       Vocabulário precioso e vulgar
·       Imagens
·       Símbolos
·       Estilo confessional brusco
·       Decassílabos agrupados em quadras
·       “Opiário “

Segunda – Futurismo (1914 a 1916)
Nesta fase, Álvaro de Campos celebra o triunfo da máquina, da energia mecânica e da civilização moderna. Sente-se nos poemas uma atracção quase erótica pelas máquinas, símbolo da vida moderna. Campos apresenta a beleza dos “maquinismos em fúria” e da força da máquina por oposição à beleza tradicionalmente concebida. Exalta o progresso técnico, essa “nova revelação metálica e dinâmica de Deus”. A “Ode Triunfal” ou a “Ode Marítima” são bem o exemplo desta intensidade e totalização das sensações. A par da paixão pela máquina, há a náusea, a neurastenia provocada pela poluição física e moral da vida moderna.
·        Elogio da civilização industrial e da técnica
·        Triunfo da máquina, beleza dos “maquinistas em fúria”
·        Intelectualização das sensações, delírio sensorial
·        Não aristotélica
·        Sado masoquismo
·        Cantar lúcido do mundo moderno
·        Influência de Walt Whitman
·        Vertigem das sensações modernas
·        Volúpia da imaginação
·        Hipertrofia ilimitada do eu
·        Energia explosiva
·        Impulsos inconscientes
·        Verso livre, longo
·        Estilo esfuziante, torrencial
·        Anáforas, exclamações, interjeições, apóstrofes e enumerações
·        Fantasia verbal
·        Volúpia de ser objecto
·        Vítima
·        Dispersão
·        “Ode triunfal”

Terceira fase –  pessoal ou intimista (1916 a 1935)
Perante a incapacidade das realizações, traz de volta o abatimento, que provoca “Um supremíssimo cansaço, /íssimo, íssimo, íssimo, /Cansaço…”. Nesta fase, Campos sente-se vazio, um marginal, um incompreendido. Sofre fechado em si mesmo, angustiado e cansado. (“Esta velha angústia”; “Apontamento”; “Lisbon revisited”).
·       Melancolia
·       Devaneio
·       Cosmopolitismo
·       Cepticismo
·       Dor de pensar
·       Saudades da Infância ou do Irreal
·       Dissolução do eu
·       Conflito entre a realidade e o poeta
·       Cansaço, tédio e abulia
·       Angustia existencial
·       Solidão
·       “Aniversário” e a “Tabacaria”


Traços da sua poesia

·        Poeta modernista
·        Poeta sensacionista
·        Cultor das sensações sem limite
·        Poeta de verso livre
·        Poeta de angustia existencial e da auto ironia

Traços estilísticos

·        Verso livre em geral muito longo
·        Assonâncias, onomatopeias, aliterações
·        Grafismos expressivos
·        Mistura de níveis de língua
·        Enumerações excessivas, exclamações, interjeições e pontuação emotiva
·        Desvios sintácticos
·        Estrangeirismos e neologismos
·        Subordinação de fonemas
·        Construções nominais, infinitivas e gerundivas
·        Metáforas ousadas, oximoros,  personificações, hipérboles
·        Estética não aristélica na fase futurista.


Quadro-Síntese:
Temáticas
Estilísticas


-         Apologia da civilização mecânica, da indústria, da técnica (futurismo e sensacionismo): tentativa de romper com o subjectivismo da lírica tradicional
-         Atitude escandalosa, chocante: trangressão de uma atitude moral estabeleciada
-         Traços de anti-filosofia e anti-poesia
-         Sadismo e masoquismo
-         Ilusão: sonho; retorno impossível à infância; viagem
-         Mais evolutivo que qualquer dos outros heterónimos (três fases)
-         Última fase: conflito realidade/poeta: cansaço existencial, náusea, tédio, abulia; estranheza da realidade solidão; isolamento; dissolução do “eu”; ritmo lento


-         Exclamação, apóstrofe repetida, interjeição, gradação (ascendente e descendente)
-         Repetição, simetria de construção, assonância, aliteração, rima interior, enumeração desordenada, polissíndeto
-         Construções nominais e infinitivas
-         Verso livre e, em geral, muito longo ( duas ou três linhas) e com encavalgamento
-         Onomatopeia
-         Grafismo inovador
-         Oxímoro
-         Uso expressivo da pontuação: exclamação, interrogação, reticências
-         Estrangeirismos, neologismos e susbstantivação de fonemas
-         Metáfora, personificação e hipérbole









16/10/2013

Heterónimos Ficha de Trabalho

Verifique os seus conhecimentos relativamente à criação heteronímica pessoana.

1. Complete os espaços do texto que se segue com as palavras/expressões apresentadas lateralmente.

Despersonalizar-se
Heterónimos
Autónomas
Pensamento
Apesar de
Histeroneurastenia
Fingimento Poético
Psiquiátrico
Heteronímia
Criadoras
Personagens
Adolfo Casais Monteiro
Simular
Emoções
A génese da _____________ foi explicada pelo próprio Fernando Pessoa numa carta a ___________________. A sua “pequena humanidade” foi o resultado de um problema __________, denominado de ______________. Associado a este, surge a tendência excessiva de Pessoa em ___________, ____________, o que se relaciona com o ____________  _____________.
Com a criação dos ______________, Pessoa quis criar nem mais nem menos do que ________________ dramáticas.
Caeiro, Reis e Campos são, então, personagens _______________ cujas _____________, cujos sentimentos e cujo ______________ não são os de Pessoa. ______________ fictícias, são personagens ___________________.

2. Ligue os segmentos frásicos das duas colunas.

Grelha de correcção

Alberto Caeiro
1.


1. Com Alberto Caeiro,
a) serve de exemplo a Alberto Caeiro e a Ricardo Reis, adeptos da áurea mediocritas.
2.


2. Caeiro é o chefe
b) de uma pequena companhia teatral que representa a sua peça no palco da poesia.
3.


3. Para todos eles, incluindo o ortónimo,
c) que é vivido por Alberto Caeiro, ao privilegiar as sensações oferecidas pelos diversos órgãos sensoriais.
4.


4. O  poeta de “O Guardador de Rebanhos”
d) Pessoa quis criar um pólo de referência para as suas outras personagens.
5.


5. Alberto Caeiro recusa o pensamento metafísico,
e) é autodidata, de vivência simples e concreta.
6.


6. A simplicidade da vida rural
f) Caeiro foi o mestre.
7.


7. O puro sensacionismo é aquele
g) aderindo espontaneamente às coisas, tais como são, gozando-as despreocupadamente.
8.


8. O “mestre” vive
h) são versos de Caeiro que refletem a sua antimetafísica, afirmando o primado dos sentidos.
9.


9. “Pensar incomoda como andar à chuva” e “eu não tenho filosofia: tenho sentidos…”
i) afirmando que “pensar é não compreender”.

Grelha de correcção

Ricardo Reis
1.


1. Ricardo Reis, tal como Caeiro,
a) considerando o seu exercício mental em desejar atingir a felicidade de um modo comedido.
2.


2. Apesar de apresentar alguns pontos comuns com o seu mestre,
b) recorre à ode, à mitologia e aos latinismos.
3.


3. O heterónimo de raízes clássicas vai abdicar dos prazeres intensos,
c) são alguns dos conselhos de Ricardo Reis, seguidor do carpe diem horaciano.
4.


4. Evitar as preocupações e gozar moderadamente o momento presente
d) revela-se pagão aceitando a ordem das coisas ao gozar a vida, pensando o menos possível.
5.


5. Adotando uma postura de tranquilidade imperturbável,
e) comprovado pelo recorrente uso do imperativo e do vocativo, de modo a transmitir uma lição de vida.
6.


6. Como um clássico, este heterónimo
f) Ricardo Reis faz um exercício de autodisciplina para poder viver mais tranquilamente.
7.


7. Na obra de Ricardo Reis, perpassa um tom didático
g) tal como preconizava o estoicismo.
8.


8. Os ideais clássicos de equilíbrio e harmonia aplicam-se a Ricardo Reis,
h) designada de ataraxia, o homem poderá alcançar a felicidade, na perspectiva do heterónimo Ricardo Reis.


Grelha de correcção

Álvaro de Campos
1.


1. Álvaro de Campos é adepto do futurismo,
a) porque é o resultado de uma busca reflectida e consciente para atingir a plenitude.
2.


2. Campos é o heterónimo que apresenta um percurso evolutivo,
b) pontos comuns com o seu criador, nomeadamente o tédio existencial e a saudade da infância.
3.


3. Após um período de cansaço e de tédio,
c) quando se dá conta da incapacidade de realização.
4.


4. A fase futurista-sensacionista de Campos concretiza-se
d) Campos entrega-se a um histerismo de sensações.
5.


5. O sensacionismo de Campos é diferente do de Caeiro,
e) pois nega a visão aristotélica da arte, procurando uma nova concepção de beleza.
6.


6. A Ode Triunfal exalta
f) pelo facto de evidenciar três fases distintas.
7.


7. O masoquismo do poeta verifica-se quando ele pretende pôr em prática
g) em composições poéticas de um ritmo torrencial, a traduzir a euforia do “eu”.
8.


8. Walt Whitman foi sem dúvida o seu modelo,
h) o sensacionismo levado ao paroxismo, desejando até ser triturado pelas máquinas.
9.


9. A angústia existencial volta ao poeta
i) no que diz respeito ao excesso violento de sensações.
10.


10. Na fase intimista, Álvaro de Campos apresenta
j) a sociedade industrial e cosmopolita.



Tópicos de correcção
1.
1- heteronímia
2- Adolfo Casais Monteiro
3- psiquiátrico
4- histeroneurastenia
5- despersonalizar-se
6- simular
7- fingimento poético
8- heterónimos
9- personagens
10- criadoras
11- emoções
12- pensamento
13- pensamento
14- autónomas

2.
            1. d)
2. b)
3. f)
4. e)
5. g)
6. a)
7. c)
8. i)
9. h)
3.
           1. d)
           2. f)
           3. g)
           4. c)
           5. h)
           6. b)
           7. e)
           8. a)
4.
           1. e)
           2. f)
           3. d)
           4. g)
           5. a)
           6. j)
           7. h
           8. i)
          9. c)

         10. b)

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