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09/10/2014

Discurso Direto / Direto Indireto

DIRETO
As personagens falam diretamente umas com as outras, em diálogo. Cada fala constitui um parágrafo, introduzido por um travessão.
Exemplo:
Pedro perguntou:
- Posso entrar?

DISCURSO INDIRETO
As personagens não falam diretamente, mas através de um narrador.
Exemplo:
O Pedro perguntou se podia entrar.


Verbo declarativo ou de inquirição (dizer, perguntar, responder, pedir, ordenar…)
Tempos e modos:
· Presente
· Perfeito
· Futuro do indicativo
· Futuro do conjuntivo
· Modo imperativo
Tempos e modos:
· Imperfeito
· Mais-que-perfeito
· Condicional
· Imperfeito do conjuntivo
· Modo conjuntivo
Pessoa gramatical
(verbos, pronomes pessoais, pronomes e determinantes possessivos):

1º ou 2. ª  pessoas
Pessoa gramatical
(verbos, pronomes pessoais, pronomes e determinantes possessivos):

3.ª  pessoa
Demonstrativos:
Este, esta, isto
Esse, essa, isso

Possesivos:
Meu(s), teu(s), nosso(s), vosso(s)
Demonstrativos:
Aquele, aquela, aquilo


Possessivos.
Seu(s), dele(s)
Advérbios de tempo:
agora, já, imediatamente, hoje, ontem, na véspera, amanhã, logo
Advérbios de tempo:
então, naquele momento, logo, naquele dia, no dia anterior, no dia seguinte, depois
Advérbios de lugar:
aqui
cá
Advérbios de lugar:
ali, além, acolá,
lá
Vocativo
Desaparece ou passa a complemento indireto da oração subordinante

Funções Sintáticas - Ficha Informativa

GN – grupo nominal
É constituído por um nome ou um pronome, sozinhos ou acompanhados por outras palavras.
Exemplos:
1.       NOME – Van Gogh foi um grande pintor.
2.       PRONOME – Ninguém ficou ferido. / Ela visitou a madrinha.
3.       DETERMINANTE + NOME – Esta pintora é admirável.
4.       QUANTIFICADOR + NOME – Muitas árvores estão floridas.
5.       DETERMINANTE + NOME + ADJETIVO – Os alunos estudiosos são sempre compensados.
6.       DETERMINANTE + NOME + GRUPO PREPOSICIONAL – A água deste rio não está poluída.

GV – grupo verbal
É constituído por um verbo ou por um complexo verbal, sozinhos ou acompanhados por outras palavras.
Exemplos:
1.       VERBO – As crianças adormeceram.
2.       COMPLEXO VERBAL[1] – As crianças têm crescido.
3.       VERBO + GUPO NOMINAL – As crianças comeram um bolo.
4.       VERBO + GUPO NOMINAL + GUPO PREPOSICIONAL – As crianças deram o leite ao gato.
5.       VERBO + GUPO ADJETIVAL – As  crianças são irrequietas.
6.       VERBO + GRUPO PREPOSICIONAL – As crianças foram à praia.
7.       VERBO + GRUPO ADVERBIAL – As crianças moram muito perto.
8.       COMPLEXO VERBAL + GUPO PREPOSICIONAL -  O lixo foi apanhado pelos voluntários.

GAdj – grupo adjetival
É constituído por um adjetivo ou por uma sequência de palavras cujo núcleo é o adjetivo.
Exemplos:
1.       ADJETIVO – Esta paisagem é lindíssima.
2.       ADVÉRBIO + ADJETIVO – Aquela casa é muito grande.
3.       ADJETIVO + GRUPO PREPOSICIONAL – As cores são lindas de morrer.
                                                  
GPrep – grupo preposicional
O núcleo é uma preposição seguida de um grupo nominal ou de um advérbio.
Exemplos:
1.       PREPOSIÇÂO + GRUPO NOMINAL – Van Gogh pintou com muitas cores. / Ela falou de alguns problemas.
2.       PREPOSIÇÂO + ADVÉRBIO – Eles foram para ali. / Não o vejo desde ontem.

GAdv – grupo adverbial
É constituído por um advérbio ou por uma sequência de palavras cujo núcleo é um advérbio.
Exemplos:
1.       ADVÉRBIO – A Carlota mora perto. / Hoje vou ao cinema.
2.       ADVÉRBIO + ADVÉRBIO – A Carlota mora muito perto.
3.       ADVÉRBIO + GRUPO PREPOSICIONAL – A Carlota mora perto da escola.


FUNÇÕES SINTÁTICAS DOS GRUPOS CONSTITUINTES DAS FRASES
1.       Sujeito
2.       Predicado
2.1. Complemento direto
2.2. Complemento indireto
2.3. Complemento oblíquo
2.4. Predicativo do sujeito
2.5. Complemento agente da passiva
2.6. Modificador verbal
3.       Vocativo
4.       Modificador de frase

1.       SUJEITO
Tipos de sujeito:
1.       Sujeito simples: constituído por um único grupo nominal ou pronome.
                                                    A criança está feliz. Ela está feliz.
2.       Sujeito composto: constituído por dois ou mais grupos nominais ou por dois ou mais pronomes.
                                                    A mãe e a criança estão felizes.  Eu, tu e ele estamos felizes.
3.        Sujeito nulo: quando não está expresso.
                                                    (Elas) Estão no jardim.
3.1.  Sujeito nulo subentendido: o sujeito não está expresso, embora, pelo contexto, se possa identificar.
                                                 (Eu) Tenho irmãs gémeas. (Elas) São iguaizinhas.
3.2. Sujeito nulo indeterminado: remete para uma entidade não especificada – alguém, há quem, há pessoas que.
                                                 Diz-se que vai continuar o calor. (Alguém diz…)
                                                 Na reunião, discutiram-se muitos problemas. (Na reunião, há pessoas que…)
3.3. Sujeito nulo expletivo: surge normalmente com verbos meteorológicos e em algumas frases com o verbo haver.
                                                 Chove muito.

2.       PREDICADO
É a função sintática desempenhada pelo grupo verbal. O predicado expressa aquilo que se diz sobre o sujeito.
2.1. Complemento direto
É a função sintática desempenhada por uma constituinte da frase selecionado por um verbo transitivo direto[2]
Exemplos:                                                          predicado
                                                     A Susana faz os trabalhos de casa.
                                                                     o quê?      complemento direto

                                                                             predicado
                                                     A Susana encontrou uma amiga.
                                                                       quem?         complemento direto

O complemento direto pode ser substituído pelos pronomes pessoais complemento: o, a, os, as.
                                                     Ele lê os trabalhos. Ele lê-os.




2.2   Complemento indireto
É a função sintática desempenhada por um constituinte da frase exigido por um verbo transitivo indireto[3] ou transitivo direto e indireto[4].

                                       Quem?                                      O quê?                         a quem?
A Marta         conta                 um segredo               ao Frederico.
  Sujeito         verbo                complemento            complemento
                      transitivo              direto                         indireto
         O complemento indireto, geralmente, liga-se ao verbo através de uma preposição. O complemento indireto pode estar representado por um pronome pessoal
                                               A Marta conta-lhe um segredo.

2.3   Complemento oblíquo
É a função sintática desempenhada por um constituinte exigido por determinados verbos:
·         Verbos locativos: morar, viver, residir, habitar…
A minha prima mora em França.
·         Verbos de movimento: ir, vir, partir, chegar…
A minha prima partiu para Paris.
·         Verbos com significado de duração: datar, durar, prolongar…
A viagem durou duas horas.
·         Verbos com significado de necessidade, carência: precisar, necessitar, carecer..
Por vezes, ela precisa de vir a Portugal.
O complemento oblíquo pode ser representado por:
·         Um grupo preposicional
Ela chegou de Paris. Ela mora em Paris.
Ela veio de avião. Ela foi à praia.

·         Um grupo adverbial
Ela mora lá. Ela veio cá. Ela foi ali.
Distinguir o complemento oblíquo do complemento direto – o complemento oblíquo nunca pode ser substituído pelos pronomes pessoais o, a, os, as, o que acontece com o complemento direto.
Distinguir o complemento oblíquo do complemento indireto – o complemento oblíquo nunca pode ser substituído pelos pronomes pessoais me, te, lhe, lhes, o que acontece com o complemento indireto.
2.4   Predicativo do sujeito
É a função sintática desempenhada pelo constituinte que, selecionado por um verbo copulativo[5], atribui ao sujeito quer qualidades ou estados, quer uma localização (no espaço e no tempo).
O predicativo do sujeito pode ser realizado por:
·         Um grupo nominal – As bailarinas parecem umas bonecas.
·         Um grupo adjetival – O público está silencioso.
·         Um grupo adverbial – As bailarinas ficaram ali até chegar a noite.
·         Um grupo preposicional – Agora, as bailarinas estão em férias.


Distinuir a função de complemento direto das funções de predicativo do sujeito.
·         O complemento direto é sempre selecionado por um verbo principal transitivo direto e não atribui qualquer característica ao sujeito. -  Aquela bailarina faz uma alimentação saudável.
·         O predicativo do sujeito é sempre selecionado por um verbo copulativo, atribui uma característica ao sujeito e concorda com o sujeito em género e número quando é adjetival.
- Aquela bailarina é linda.

2.5   Complemento agente da passiva
É a função sintática desempenhada por um constituinte selecionado por um verbo transitivo direto conjugado na voz passiva.
O complemento agente da passiva é sempre realizado por um grupo preposicional introduzido pela preposição por (e suas contrações pelo, pela)
                      As árvores foram arrancadas pelo vento.
                      O bolo foi feito por mim.
O complemento agente da passiva não pode ser substituído pelos pronomes O, a, os, as, me, te, lhe, nos, vos, lhes.

2.6   Modificador verbal
É a função sintática desempenhada por um constituinte que não é selecionado pelo verbo.
- O modificador de um verbo é sempre facultativo.
                      O Pedro caiu ali.
O modificador verbal pode ser representado por:
      - um grupo adverbial: Eles comeram muito bem.
      - um grupo preposicional: Eles comeram com apetite.
      - uma oração: Eles comeram porque estavam com fome.
Valores do modificador
- Valor locativo (lugar)
A Sara festejou o aniversário no parque. / Uma árvore caiu no pátio. / Choveu em Trás-os-Montes.
- Valor temporal (tempo)
O Tiago leu um poema na semana passada. / Uma árvore caiu durante a noite.
- Valor causal (causa)
Os gelados derreteram-se com o calor. / As cerejas estragaram-se devido à chuva.
- Valor modal (modo)
O Tiago leu o poema expressivamente. / Uma árvore caiu com um grande estrondo.


3.       VOCATIVO
É a função sintática desempenhada por uma palavra ou expressão que, numa frase, interpela, chama ou invoca diretamente alguém ou algo personificado.
           Ó Fábio, despacha-te
           Aonde vais, ó Fábio?
Fizeste uma bela pintura, Fábio!
O vocativo pode ser colocado no início, no interior ou no fim da frase.
Ó meninos, silêncio, não gritem!
                Silêncio, meninos, não gritem!
                Silêncio, não gritem, meninos!
Importante: O vocativo é sempre separado por vírgulas; pode ou não ser introduzido pela interjeição ó; nunca tem determinantes artigos nem demonstrativos.
4.       MODIFICADOR DE FRASE
É a função sintática desempenhada por um constituinte facultativo que ocorre associado a toda a frase, não se incluindo, assim, no interior de qualquer dos seus constituintes (GN. GV, GPrep, …)
O modificador de frase pode ocorrer em diversas posições na frase.
Apesar do frio, as crianças brincam na neve. / As crianças brincam na neve, apesar do frio.
                          As crianças, apesar do frio, brincam na neve.




[1] Complexo verbal é a sequência formada por dois ou mais verbos em que apenas um é o verbo principal, sendo os restantes verbos auxiliares. Exemplos: O João tem lido muito. (tem – verbo auxiliar, lido – verbo principal)
[2]  Verbo transitivo direto: é o verbo que seleciona complemento direto, exigindo a sua presença na frase. (Exe: empurrar, observar, encontrar…)
[3]   Verbo transitivo indireto: é o verbo que seleciona complemento indireto ou complemento oblíquo. (Ex: obedecer, agradar, telefonar, pertencer, gostar, sorrir, pertencer…) 
[4]  Verbo transitivo direto e indireto: seleciona complemento direto e indireto, ou complemento direto e oblíquo. (Ex: oferecer, contar, segredar, escrever…
[5] Verbo copulativo: é o que, numa frase, tem a função de ligar o sujeito a uma sua qualidade ou estado. OS verbos copulativos são: ser, estar, ficar, continuar, parecer, permanecer, andar (os verbos continuar e andar podem também pertencer a outras subclasses  - Ele continuou a andar (transitivo direto) / Eles andam depressa. (intransitivo)

21/09/2014

Fernando Pessoa Ortónimo

Características temáticas

-          Identidade perdida e incapacidade de definição
-          Consciência do absurdo da existência
-          Para ele a realidade não é apenas aquilo que se vê superficialmente
-          Tensão sinceridade / fingimento, consciência /inconsciência
-          Oposição: sentir / pensar, pensamento / vontade, esperança 7 desilusão
-          Anti-sensacionismo: intelectualização da emoção
-          Estados negativos: solidão, cepticismo, tédio, angústia, cansaço, náuse, desespero
-          Inquietação metafísica
-          Neoplatismo
-    Tentativa de superação da dor, do presente, etc., através da evocação da infância, idade de ouro, onde a felicidade ficou perdida e onde não existia o doloroso sentir
-    refúgio no sonho, no ocultismo (correspondência entre o visível e o invisível)
-    criação dos heterónimos (“Sê plural como o Universo!”)
-    Intuição de um destino colectivo e épico para o seu País (Mensagem)
-    Renovador de mitos
-    a visão do mundo exterior é fabricada em função do sentimento interior
-    Reflexão sobre o problema do tempo como vivência e como factor de fragmentação do “eu”
-    O presente é o único tempo por ele experimentado (em cada momento se é diferente do que se foi)
-    Tem uma visão negativa e pessimista da existência; o futuro aumentará a sua angústia porque é o resultado de sucessivos presentes carregados de negatividade

Características estilísticas

-          simplicidade formal; rimas externas e internas; redondilha maior (gosto pelo popular) dá uma ideia de simplicidade e espontaneidade
-    Grande sensibilidade musical:
o   eufonia – harmonia de sons
o   aliterações, encavalgamentos, transportes, rimas, ritmo
o   verso geralmente curto (2 a 7 sílabas)
o   predomínio da quadra e da quintilha
-          Adjectivação expressiva
-          Economia de meios:
o   Linguagem sóbria e nobre – equilíbrio clássico
-          Pontuação emotiva
-          Uso frequente de frases nominais
-          Associações inesperadas [por vezes desvios sintácticos – enálage
-          Comparações, metáforas originais, oxímoros
-          Uso de símbolos
-          Reaproveitamento de símbolos tradicionais (água, rio, mar...)


Temáticas

ü  O sonho, a intersecção entre o sonho e a realidade (exemplo: Chuva oblíqua – “E os navios passam por dentro dos troncos das árvores”);
ü  A angustia existencial e a nostalgia da infância (exemplo: Pobre velha música – “Recordo outro ouvir-te./Não sei se te ouvi/Nessa minha infância/Que me lembra em ti.” ;
ü  Distância entre o idealizado e o realizado – e a consequente frustração (“Tudo o que faço ou medito”);
ü  A máscara e o fingimento como elaboração mental dos conceitos que exprimem as emoções ou o que quer comunicar (“Autopsicografia”, verso “O poeta é um fingidor”);
ü  A intelectualização das emoções e dos sentimentos para a elaboração da arte (exemplo: Não sei quantas almas tenho – “O que julguei que senti”) ;
ü  O ocultismo e o hermetismo (exemplo: Eros e Psique)
ü  O sebastianismo (a que chamou o seu nacionalismo místico e a que deu forma na obra Mensagem;
ü  Tradução dos sentimentos nas linguagem do leitor, pois o que se sente é incomunicável.

Sinceridade/fingimento
- Intelectualização do sentimento para exprimir a arte -> poeta fingidor
            - despersonalização do poeta fingidor que fala e que se identifica com a própria criação poética
- uso da ironia para pôr tudo em causa, inclusive a própria sinceridade
            - Crítica de sinceridade ou teoria do fingimento está bem patente na união de contrários
            - Mentira: linguagem ideal da alma, pois usamos as palavras para traduzir emoções e pensamentos (incomunicável)

Consciência/inconsciência

            - Aumento da autoconsciência humana (despersonalização)
            - tentativa de resposta a várias inquietações que perturbam o poeta

Sentir/pensar
            - concilia o pensar e o sentir
            - nega o que as suas percepções lhe transmitem
            - recusa o mundo sensível, privilegiando o mundo intelegível
- Fragmentação do eu à interseccionismo entre o material e o sonho; a realidade e a idealidade; realidades psíquicas e fisicas; interiores e exteriores; sonhos e paisagens reais; espiritual e material; tempos e espaços; horizontalidade e verticalidade.

O tempo e a degradação: o regresso à infância
            - desencanto e angústia acompanham o sentido da brevidade da vida e da passagem dos dias
            - busca múltiplas emoções e abraça sonhos impossiveis, mas acaba “sem alegria nem aspirações”, inquieto, só e ansioso.
            - o passado pesa “como a realidade de nada” e o futuro “como a possibilidade de tudo”. O tempo é para ele um factor de desagregação na medida em que tudo é breve e efémero.
            - procura superar a angústia existencial através da evocação da infância e de saudade desse tempo feliz.

O tédio, o cansaço de viver
O poeta constata que não é ninguém, ele é nada – o sonho de ir mais além desaparece. Diz que não sabe nada, não sabe sentir, não sabe pensar, não sabe querer, ele é um livro que ficou por escrever. Ele é o tédio de si próprio: está cansado da sua vida, está cansado de si.


Poemas

- “Meu coração é 1 pórtico partido”  - fragmentação do “eu”

- “Hora Absurda”       - fragmentação do “eu”
                                   - interseccionismo

- “Chuva Oblíqua”     - fragmentação do “eu”: o sujeito poético revela-se duplo, na busca de sensações que lhe permitem antever a felicidade ansiada, mas inacessível.
- interseccionismo impressionista: recria vivências que se interseccionam com outras que, por sua vez, dão origem a novas combinações de realidade/idealidade.


- “Autopsicografia”    - dialéctica entre o eu do escritor  e o eu poético, personalidade fictícia e criadora.
            - criação de 1 personalidade livre nos seus sentidos e emoções <> sinceridade de sentimentos
            - o poeta codifica o poema q o receptor descodifica à sua maneira, sem necessidade de encontrar a pessoa real do escritor
            - o acto poético apenas comunica 1 dor fingida, pois a dor real  continua no sujeito que tenta 1 representação.
            -  os leitores tendem a considerar uma dor que não é sua, mas que apreendem de acordo com a sua experiência de dor.    
            - A dor surge em 3 níveis: a dor real, a dor fingida e a “dor lida”
۰        A arte nasce da realidade
۰        A poesia consiste no fingimento dessa realidade: a dor fingida ou intelectualizada
۰        A intelectualização é expressa de forma tão artística que parece mais autêntica que a realidade
۰        Relação do leitor com a obra de arte:
¤        Não sente a dor real (inicial): essa pertence ao poeta
¤        Não sente a dor imaginária: essa pertence ao criador (poeta)
¤        Não sente a dor que ele (leitor) tem
¤        Sente o que o objecto artístico lhe desperta: uma quarta dor, a dor lida
۰        A obra é autónoma, quer em relação ao leitor, quer em relação ao autor (vale por si)
Há uma intelectualização da emoção: é recebido um estímulo (emoção) – dado pelo coração – que é intelectualizado – pela razão ; o que surge na criação são as emoções intelectualizadas. Ou seja, o pensar domina o sentir – a poesia é um acto intelectual

-         Ela canta pobre ceifeira – a ceifeira representa os sensacionistas e o seu canto seduz o poeta, que mesmo assim não consegue deixar de pensar; o poeta quer o impossível: ser inconsciente mas saber que o é, sentir sem deixar de pensar – o seu ideal de felicidade; acaba por verificar que só os sensacionistas são felizes, pois limitam-se a sentir, e tem então um desejo de aniquilamento; musicalidade produzida pelas aliterações, transporte, metáfora e quadra

-         Não sei se é sonho, se realidade – exprime um tensão entre o apelo do sonho (caracterizado pela tranquilidade, sossego, serenidade e afastamento) e o peso da realidade; a realidade fica sempre aquém do sonho e mesmo no sonho o mal permanece – frustração; conclui que a felicidade, a cura da dor de viver, de pensar, não se encontra no exterior mas no interior de cada um.

- Não sei quantas almas tenho – o poeta confessa a sua desfragmentação em múltiplos “eus”, revelando a sua dor de pensar, pque esta divisão provém do facto de ele intelectualizar as emoções; a sucessiva mudança leva-o a ser estranho de si mesmo (não reconhece aqueilo que escreveu); metáfora da vida como um livro: lê a sua própria história (despersonalização, distancia-se para se ver)


-         Entre o sono e o sonho - símbolo do rio: divisão, separação, fluír da vida – percurso da vida; é a imagem permanente da divisão e evidencia a incapacidade de alterar essa situação (o rio corre sem fim – efemeridade da vida); no presente, tal como no passado e no futuro (fatalidade), o eu está condenado à divisão porque condenado ao pensamento (se fosse inconsciente não pensava e por isso não havia possibilidade de haver divisão); tristeza, angústia por não poder fazer nada em relação à divisão que há dentro de si; metáfora da casa como a vida: o seu eu é uma casa com várias divisões – fragmentação

-         Bóiam leves, desatentos - poema apresenta um conjunto de elementos que sugerem indefinição e estagnação, estados que provocam o tédio e o cansaço de viver (“bóiam”, “sono”, “corpo morto”, folhas mortas”, águas paradas”, casa abandonada”); todos estes elementos apontam para a dor, a incapacidade de viver, a angústia, o tédio; os seus pensamentos andam como que à deriva, não têm onde ficar, pois ele é nada; são insignificantes, sem consistência, vagos, sem conteúdo; impossibilidade do sujeito saír do estado de estagnação em que se encontra (entre a vida e a não vida); musicalidade: transporte, anáfora (repetição duma palavra), ritmo (lento, parado – como ele)

-         Aqui na orla da praia, mudo e contente do mar - sujeito não quer desejar muito mais para além do que é natural e espontâneo na vida;  tudo aquilo a que o homem se pode agarrar é imperfeito e inútil (ex:amor); a melhor maneira de passar pela vida é não desejar, não se sentir atraído por nada (apatia, cansaço total); revela um certo desejo de morte porque já n quer nada; desejo de comunhão com a natureza


Fernando Pessoa conta e chora a insatisfação da alma humana. A sua precariedade, a sua limitação, a dor de pensar, a fome de se ultrapassar, a tristeza, a dor da alma humana que se sente incapaz de construir e que, comparando as possibilidades miseráveis com a ambição desmedida, desiste, adormece “num mar de sargaço” e dissipa a vida no tédio.
Os remédios para esse mal são o sonho, a evasão pela viagem, o refúgio na infância, a crença num mundo ideal e oculto, situado no passado, a aventura do Sebastianismo messiânico, o estoicismo de Ricardo Reis, etc.. Todos estes remédios são tentativas frustradas porque o mal é a própria natureza humana e o tempo a sua condição fatal. É uma poesia cheia de desesperos e de entusiasmos febris, de náusea, tédios e angústias iluminados por uma inteligência lúcida – febre de absoluto e insatisfação do relativo.

A poesia está não na dor experimentada ou sentida mas no fingimento dela, apesar do poeta partir da dor real “a dor que deveras sente”. Não há arte sem imaginação, sem que o real seja imaginado de maneira a exprimir-se artisticamente e ser concretizado em arte. Esta concretização opera na memória a dor inicial fazendo parecer a dor imaginada mais autêntica do que a dor real. Podemos chegar à conclusão de que há 4 dores: a real (inicial), a que o poeta imagina (finge), a dor real do leitor e a dor lida, ou seja, intelectualizada, que provém da interpretação do leitor.





Quadro-Síntese:
Temáticas
Estilísticas
Nível Fónico
Nível Morfossintático e semântico
-         Consciência do absurdo da existência, recusa da realidade, incapacidade de viver;
-         Oposições pensar/sentir, consciência/inconsciência, pensamento/vontade, esperança/desilusão

Conduzem a:
-         tédio; angustia; melancolia; desespero; náusea; nostalgia de bem perdido (tema da perda);  abdicação, desistência; abulia; dificuldade em distingir o sonho da realidade;
-         solidão, egotismo, cepticismo, anti-sentimentalismo;
-         inquietação metafísica, dor de pensar, dor de viver

Busca de superação através de:
-         evocação da infância (enquanto símbolo de uma felicidade);
-         ilusão no sonho;
-         ocultismo (procura de uma correspondência entre o visível e o invisível);
-         fingimento( enquanto alienação de si próprio, processo criativo e máscara) - heteronímia
-       musicalidade:
o versificação regular e tradicional (vertente tradicionalista: predomínio da quadra e da quintilha e do verso curto(duas a setes sílabas));
o rima, ritmo, aliteração, onomatopeia
o encavalgamento
-         linguagem sóbria e nobre;
-       expressividade dos modos e tempos verbais, com preferência pelo presente do indicativo;
-       equilíbrio clássico;
-       sintaxe simples;
-       adjectivação expressiva
-       paralelismos e repetições
-       uso de símbolos: reaproveitamento de símbolos tradicionais; passagem de uma imagem-símbolo nacional à reflexão sobre o símbolo;
-       imprevisibilidade: metáforas inesperadas; desarticulação sintática;
-       expressividade da pontuação; interrogações, exclamações, reticências;
-       uso de frases nominais;
-       metáforas, comparações e imagens;
-       antíteses;
-       paradoxos;
-       oxímoros

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