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21/09/2014

“Mensagem” vs. “Os Lusíadas”

Semelhanças: concepção mística e missionária/missionante da história portuguesa, preocupação arquitectónica: ambas obedecem a um plano cuidadosamente elaborado, o reverso da vitória são as lágrimas.
Diferenças:
۰        Os Lusíadas foram compostos no início do processo de dissolução do império e Mensagem publicada na fase terminal de dissolução do império;
۰        Os Lusíadas têm um carácter predominantemente narrativo e pouco abstractizante, enquanto que Mensagem tem um carácter menos narrativo e mais interpretativo e cerebral;
۰        no primeiro o Adamastor é sinónimo de lágrimas e mortes, sofrimento e audácia que as navegações exigiram, enquanto que no segundo simboliza os medos e terrores vencidos pela ousadia;
۰        nos Lusíadas o tema é o real, o histórico, o factual (os acontecimentos, os lugares), em Mensagem o tema é a essência de Portugal e a necessidade de cumprir uma missão;
۰        para Camões os deuses olímpicos regem os acidentes e as peripécias do real quotidiano, para Pessoa os deuses são superados pelo destino, que é força abstracta e inexorável;
۰        nos Lusíadas os heróis são pessoas com limitações próprias da condição humana, mesmo se ajudados nos sonhos pela intervenção divina cristã ou pelos deuses do Olimpo, em Mensagem os heróis são mitificados e encarnam valores simbólicos, assumindo proporções gigantescas;
۰        Lusíadas: narrativa comentada da história de Portugal, Mensagem: metafísica do ser português; Lusíadas: heróis e mitos que narram as grandezas passadas. Mensagem: heróis e mitos que exaltam as façanhas do passado em função de um desesperado apelo para grandezas futuras;
A comparação entre "Os Lusíadas" e a "Mensagem" impõe-se pelo próprio facto de esta ser, a alguns séculos de distância e num tempo de decadência - o novo mito de pátria portuguesa.


 

Os Lusíadas



Mensagem
ü  Homens reais com dimensões heróicas mas verosímeis;

ü  Heróis de carne e osso, bravos mas nunca infaliveís;
ü  Heróis mitificados, desincarnados, carregando dimensões simbólicas

v          Brasão ® Terra ® Nun’Álvares Pereira
v          Mar Português ® Mar ® Infante D. Henrique
v          O encoberto ® Ar ® D. Sebastião

(de uma terra de dimensões conhecidas parte-se à descoberta do mar e constrói-se um império. Depois o império se desfez e o sonhos e o Encoberto são a raiz a esperança de um Quinto Império)
ü  Herói colectivo: o povo português
ü  Virtudes e manhas

ü  Heróis individuais exemplares (símbolos)

ü  D. Sebastião (rei menino) a quem Os Lusíadas são dedicados;
“tenro e novo ramo”            

ü  D. Sebastião mito “loucura sadia”
Sonho, ambição
(repare-se que d. Sebastião é a última figura da história a ser mencionada, como se  quisesse dizer que Portugal mergulhou, depois do seu desaparecimento num longo período de letargia)

ü  Celebração do passado – história
ü  Glorificação do futuro – símbolos
ü  Messianismo a mola real de Portugal
ü   
ü  Narrativa comentada da história de Portugal (cf. Jorge Borges de Macedo)
Teoria da história de Portugal
ü  Metafísica do Ser português
ü  Três mitos basilares:
o   Adamastor
o   Velho do restelo
o   A ilha dos amores
ü  Tudo é mito
“o mito é o nada que é tudo”



ü  acção
ü  contemplação
ü  altiva rejeição do real
ü  império feito e acabado
ü  Portugal indefinido, atemporal
ü   
ü  Saudade profética ® saudades do futuro
ü  Façanhas dos barões assinalados
ü  Matéria dos sonhos
ü  Temporalidade

ü  Atemporalidade mística
ü  Síntese pagão e cristão
ü  Síntese total (sincretismo religioso)
ü  D. Sebastião como enviado de Deus para alargar a Cristandade
ü   Portugal como instrumento de Deus
(os heróis cumprem um destino que os ultrapassa)
ü  cabeça da Europa
ü  Rosto da Europa que aguarda expectante o que virá


O projecto da Mensagem é o de superar o carácter obsessivo e nacional d’Os Lusíadas no imaginário mítico-poético nacional. Os Lusíadas conquistaram o título de “evangelho nacional” e foram elevados à categoria de símbolo nacional. A Mensagem logo no seu título aponta para um novo evangelho, num sentido místico, ideia de missão e de vocação universal. O próprio título indicia uma revelação, uma iniciação.
Pessoa previa para breve o aparecimento do “Supra-Camões” que anunciará o “Supra-Portugal de amanhã”, a “busca de uma Índia Nova”, o tal “porto sempre por achar”.
          A Mensagem entrelaça-se, através de um complexo processo intertextual, com Os Lusíadas, que por sua vez são já um reflexo intertextual da Eneida  e da Odisseia. Estabelece-se portanto um diálogo que perpassa múltiplos tempos históricos. Pessoa transforma-se num arquitecto que edifica uma obra nova, com moderbnidade, mas também com a herança da memória.
  Em Camões memória e esperança estão no mesmo plano. Em Pessoa, o objecto da esperança transferiu-se para o sonho, daí a diferente concepção de heroísmo.
Pessoa identifica-se com os heróis da Mensagem ou neles se desdobra num processo lírico-dramático. O amor da pátria converte-se numa atitude metafísica, definivel pela decepção do real, por uma loucura consciente. Revivendo a fé no Quinto Império, Pessoa reinventou um razão de ser, um destino para fugir a um quotidiano
absurdo.
           O assunto da Mensagem é a essência de Portugal e a sua missão por cumprir. Portugal é reduzido a um pensamento que descarna e espectraliza as personagens da história nacional.
          A Mensagem é o sonho de um império sem fronteiras nem ocaso. A viagem real é metamorfoseada na busca do “porto sempre por achar”.

“A Mensagem comparada com Os Lusíadas é um passo em frente. Enquanto Camões, em Os Lusíadas, conseguiu fazer a síntrese entre o mundo pagão e o mundo cristão, Pessoa na Mensagem conseguiu ir mais longe estabelecendo uma harmonia total, perfeita, entre o mundo pagão, o mundo cristão e o mundo esotérico.”

Quadro-Síntese

Temáticas
Estilísticas
Nível Fónico
Nível Morfossintático e semântico
-         Nacionalismo mítico
-         Sebastianismo e saudosismo
-         Simbolismo templário e rosacruciano
-         A ideia de predestinação nacional
-         A mitificação dos heróis
-         Intuição de um destino colectivo
-         Ocultismo procura de uma correspondência entre o visível e o invisível
- musicalidade:
-          Rima
-          Ritmo
-          Aliteração
-         Versificação        regular e tradicional:  variedade atrófica, com predomínio da quadra e da quintilha
-          Encavalgamento
-         expressão épico-lírica
-         linguagem metafórica, aforística, solene, simbólica
-         paradoxo, antítese e oxímoro
-         hiperbarto




Mensagem

Contextualização
q  Integração de Mensagem no universo poético Pessoano:
Integra-se na corrente modernista, transmitindo uma visão épico-lírica do destino português, nela se salientando o Sebastianismo, o Mito do Encoberto e o V Império.

“Criar um novo Portugal, ou melhor, ressuscitar a Pátria Portuguesa, arrancando-a do túmulo onde a sepultaram alguns séculos de obscuridade (...) E isto leva a crer que deve estar para breve o inevitável aparecimento do poeta ou poetas supremos [...] porque fatalmente o Grande Poeta, que este movimento gerará, deslocará para segundo plano a figura até aqui principal de Camões”

            A citação transcrita aponta, logo de início, para o estado de desagregação em que se encontra a Nação portuguesa e que, de algum modo, fará despoletar a ânsia de renovação desejada por Fernado Pessoa e operacionalizada nos textos da Mensagem.
            Fernando Pessoa acreditava que, através dos seus textos, poderia despertar as consciências e fazê-las acreditar e desejar a grandeza outrora vivenciada. Espera poder contribuir parar o reerguer da Pátria, relembrando, nas 1ª e 2ª partes da Mensagem, o passado histórico grandioso e anunciando a vinda do Encoberto (3ª parte), na figura mítica de D. Sebastião, que anunciaria o advento do Quinto Império.
            Preconizava para Portugal a construção de um novo império, espiritual, capaz de elevar os Portugueses ao lugar de destaque que outrora ocuparam a nível mundial. Esta projecção ficar-se-ia a dever a um “poeta ou poetas supremos” que, pela sua genialidade, colocariam Portugal, um país culturalmente evoluído, como líder de todos os outros.
            Na realidade, Fernando Pessoa antevê a possibilidade da supremacia de Portugal, não em termos materiais, como no tempo de Camões, mas em termos espirituais É nesta nova concepção de Império que assenta o carácter simbólico e mítico que enforma a epopeia pessoana e que, inevitavelmente, destacará a figura deste superpoeta, em detrimento da de Camões.


O Sebastianismo
            O sebastianismo é um mito nacional de tipo religioso.
«D. Sebastião voltará, diz a lenda, por uma manhã de névoa, no seu cavalo branco...»
O sebastianismo, fundamentalmente, o que é? É um movimento religioso, feito em volta duma figura nacional, no sentido dum mito. No sentido simbólico D. Sebastião é Portugal: Portugal que perdeu a sua grandeza com D. Sebastião, e que só voltará a tê-la com o regresso dele, regresso simbólico ( como, por um mistério espantoso e divino, a própria vida dele fora simbólica ( mas em que não é absurdo confiar. D. Sebastião voltará, diz a lenda, por uma manhã de névoa, no seu cavalo branco, vindo da ilha longínqua onde esteve esperando a hora da volta. A manhã de névoa indica, evidentemente, um renascimento anuviado por elementos de decadência, por restos da Noite onde viveu a nacionalidade.

ü  D. Sebastião não morreu porque os símbolos não morrem. O desaparecimento físico de D. Sebastião proporciona a libertação da alma portuguesa.

ü  D. Sebastião aparece cinco vezes explicitamente na Mensagem (uma vez nas Quinas, outra em Mar português e três vezes nos Símbolos).
Aliás, pode mesmo dizer-se que o Brasão e o Mar português são a preparação para a chegada do Encoberto, na sua qualidade de Messias de Portugal.

D. Sebastião faz uma espécie de elogio da loucura (condenação da matéria e sublimação do espírito)

A vinda do Encoberto era apenas por ele encarada «no seu alto sentido simbólico» e não literal, como faziam os Sebastianistas tradicionais, de quem toma distância, e que esse Desejado não seria mais do que um «estimulador de almas
            O Quinto Império era afinal «o Império Português, subordinado ao espírito definido pela língua portuguesa
O Quinto Império será «cultural», ou não será. E se diz, como Vieira, que o Império será português, isso significa que Portugal desempenhará um papel determinante na difusão dessa ideia apolínea e órfica do homem que toda a sua obra proclama.


Os Símbolos e os Mitos
q  Estrutura simbólica de Mensagem
Mensagem é a expressão poética dos mitos – não se trata de uma narrativa sobre os grandes feitos dos portugueses no passado, como em Os Lusíadas, mas sim, de um cantar de um Império de teor espiritual, da construção de uma supra-nação, através da ligação ocidente/oriente: não são os factos históricos propriamente ditos sobre os nossos reis que mais importam; são sim as suas atitudes e o que eles representam, sendo o assunto de Mensagem a essência de Portugal e a sua missão a cumprir. Daí se interpretem as figuras dos reis nos poemas de Mensagem como heróis mas mais que isso, como símbolos, de diferentes significados.

O três é um número que exprime a ordem intelectual e espiritual (o cosmos no homem). O 3 é a soma do um (céu) e do dois (a Terra). Trata-se da manifestação da divindade, é a manifestação da perfeição, da totalidade.

O sete assume também uma extrema relevância, senão vejamos, sete foram os Castelos que D. Afonso III conquistou aos mouros, sete são os poemas de Os Castelos .
O sete corresponde aos 7 dias da criação, assim como as 7 figuras evocadas são também as fundadoras da nacionalidade (Ulisses fundou Lisboa, Viriato uma nação, Conde D. Henrique um Condado, D. Dinis uma cultura, D. João uma dinastia, D. Tareja e D. Filipa fundaram duas dinastias). Pessoa manteve na sua obra a ideia do número sete como número da criação. O sete é o número da perfeição dinâmica. É o número de um ciclo completo.

O cinco está ligado às chagas de Cristo, às Quinas e aos cinco impérios sonhados por Nabucodonosar. Os quatro impérios já havidos foram a Grécia, roma, a Cristandade e a Europa pós-renascentista. Se o 5º império fosse material, Pessoa não teria dúvidas em apontar Inglaterra, mas como o 5º Império é o do ser, da essência, do imaterial, o poeta não tem dúvidas em apontar Portugal.

Também os nomes dados a cada parte e alguns nomes referidos nos poemas são também simbólicos:
•       Brasão: o passado inalterável
•       Campo: espaço de vida de de acção
•       Castelo: refúgio e segurança
•       Quinas: chagas de Cristo – dimensão espiritual
•       Coroa: perfeição e poder
•       Timbre: marca – sagração do herói para missão transcendente
•       Grifo: terra e céu – criação de uma obra terrestre e celeste
•       Mar: vida e morte; ponto de partida; reflexo do céu; princípio masculino
•       Terra: casa do homem; espelho do céu; paraíso mítico; princípio feminino
•       Padrão: marco; sinal de presença; obra da civilização cristã
•       Mostrengo: o desconhecido; as lendas do mar; os obstáculos a vencer
•       Nau: viagem; iniciação; aquisição de conhecimentos
•       Ilha: refúgio espiritual; espaço de conquista; recompensa do sacrifício
•       Noite: morte; tempo de inércia; tempo de germinação; certeza da vida
•       Manhã: luz; felicidade; vida; o novo mundo
Nevoeiro: indefinição; promessa de vida; força criadora; novo dia

Síntese Temática da “Mensagem”
•         O mito é tudo: sem ele a realidade não existe, pois é dele que ela parte
•         Deus é o agente da história; ou seja, é ele quem tem as vontades; nós somos os seus instrumentos que realizam a sua vontade. É assim que a obra nasce e se atinge a perfeição
•         O sonho é aquilo que dá vida ao homem: sem ele a vida não tem sentido e limita-se à mediocridade
•         A verdadeira grandeza está na alma; É através do sonho e da vontade de lutar que se alcança a glória
•         Portugal encontra-se num estado de decadência. Por isso, é necessário voltar a sonhar, voltar a arriscar, de modo a que se possa construir um outro império, um império que não se destrói, por não ser material: é o Quinto Império, o Império Civilizacional-Espiritual.
•         D.Sebastião, além de ser o exemplo a seguir(pois deixa-se levar pela loucura/sonho), é também visto como o salvador, aquele que trará de novo a glória ao povo português e que virá completar o sonho, cumprindo-se assim Portugal.

A estrutura tripartida da “Mensagem”
1ª Parte – BRASÃO: o princípio da nacionalidade (em que fundadores e antepassados criaram a pátria)
ü  “Ulisses” – símbolo da renovação dos mitos: Ulisses de facto não existiu mas bastou a sua lenda para nos inspirar. A lenda, ao penetrar na realidade, faz o milagre de tornar a vida “cá em baixo” insignificante. É irrelevante que as figuras de quem o poeta se vai ocupar tenham tido ou não existência histórica! (“Sem existir nos bastou/Por não ter vindo foi vindo/E nos criou.”). O que importa é o que elas representam. Daí serem figuras incorpóreas, que servem para ilustrar o ideal de ser português.
ü  “D. Dinis” – símbolo da importância da poesia na construção do Mundo: Pessoa vê D. Dinis como o rei capaz de antever o futuro e interpreta isso através das suas acções – ele plantou o pinhal de Leiria, de onde foi retirada a madeira para as caravelas, e falou da “voz da terra ansiando pelo mar”, ou seja, do desejo de que a aventura ultrapasse a mediocridade.
ü  “D. Sebastião, rei de Portugal” – símbolo da loucura audaciosa e aventureira: o Homem sem a loucura não é nada; é simplesmente uma besta que nasce, procria e morre, sem viver! Ora, D. Sebastião, apesar de ter falhado o empreendimento épico, FOI em frente, e morreu por uma ideia de grandeza, e essa é a ideia que deve persistir, mesmo após sua morte (“Ficou meu ser que houve, não o que há./Minha loucura, outros que a tomem/Com o que nela ia.”)

2ª Parte – MAR PORTUGUÊS: a realização através do mar (em que heróis empossados da grande missão de descobrir foram construtores do grande destino da Nação)
ü  “O Infante” – símbolo do Homem universal, que realiza o sonho por vontade divina: ele reúne todas as qualidades, virtudes e valores para ser o intermediário entre os homens e Deus (“Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.”)
ü  “Mar Português” – símbolo do sofrimento por que passaram todos os portugueses: a construção de uma supra-nação, de uma Nação mítica implica o sacrifício do povo (“Ó mar salgado, quanto do teu sal/São lágrimas de Portugal!”)
ü  “O Mostrengo” – símbolo dos obstáculos, dos perigos e dos medos que os portugueses tiveram que enfrentar para realizar o seu sonho: revoltado por alguém usurpar os seus domínios, “O Mostrengo” é uma alegoria do medo, que tenta impedir os portugueses de completarem o seu destino (“Quem é que ousou entrar/Nas minhas cavernas que não desvendo,/Meus tectos negros do fim do mundo?”)

3ª Parte – O ENCOBERTO: a morte ou fim das energias latentes (é o novo ciclo que se anuncia que trará a regeneração e instaurará um novo tempo)
ü  “O Quinto Império” – símbolo da inquietação necessária ao progresso, assim como o sonho: não se pode ficar sentado à espera que as coisas aconteçam; há que ser ousado, curioso, corajoso e aventureiro; há que estar inquieto e descontente com o que se tem e o que se é! (“Triste de quem vive em casa/Contente com o seu lar/Sem um sonho, no erguer da asa.../Triste de quem é feliz!”) O Quinto Império de Pessoa é a mística certeza do vir a ser pela lição do ter sido, o Portugal-espírito, ente de cultura e esperança, tanto mais forte quanto a hora da decadência a estimula.
ü  “Nevoeiro” – símbolo da nossa confusão, do estado caótico em que nos encontramos, tanto como um Estado, como emocionalmente, mentalmente, etc.: algo ficou consubstanciado, pois temos o desejo de voltarmos a ser o que éramos (“(Que ânsia distante perto chora?)”), mas não temos os meios (“Nem rei nem lei, nem paz nem guerra...”)

O carácter épico-lírico
-          Lírico
§ Forma fragmentária
§ Atitude introspectiva
§ A interiorização
§ O simbolismo (3ªparte)
-    Épico:
§ O tom heróico (“O Monstrengo”)

§ A evocação da história Trágico-Marítima (2ªparte)´

Fernando Pessoa e a Mensagem

Enquadramento histórico
»        Início do século XX
»        Avanço tecnológico e científico em contraste com as más condições de trabalho
»        Capitalismo conduz à I Guerra Mundial (1914-1918) e Revolução russa (1917)
»        Necessidade de repensar a sociedade e o próprio Homem:
o   Nietzsche põe em causa os fundamentos de então e sugere uma reavaliação dos valores para viver a vida na sua plenitude;
o   Freud demonstra a complexidade do homem e o seu lado inconsciente;
o   Einstein põe em causa grande parte do conhecimento científico.

Arte
»        Em rutura com a tradição, os artistas optam por uma abordagem mais irónica e provocatória
»        Na literatura, os protagonistas passam de heróis a seres vulgares
»        Enaltecido pelas correntes literárias anteriores, o indivíduo perde a sua identidade e unidade, criando “outros eus” (fragmentação do eu)
»        Maior liberdade na linguagem, dando sentidos metafóricos novos às palavras
»        Reinventam-se as formas, usam-se técnicas novas e experimentam-se caminhos desconhecidos
»        Movimentos:
o   Modernismo: diversidade e pluralidade; caminho pessoal de questionação e reinvenção dos valores
o   Futurismo: movimento, velocidade e máquina como demonstração de força do indivíduo
o   Cubismo: fracionamento da realidade
o   Abstracionismo: recusa de representação do real
o   Surrealismo: apelo à imaginação, sonho e loucura; escrita automática

Fernando Pessoa
            Nasce a 13 de junho de 1888, em Lisboa. Emigra aos 7 anos para Durban, África do Sul, onde obtém excelente rendimento escolar. Regressa a Lisboa em 1905, onde frequenta dois anos o Curso Superior de Letras. Monta a tipografia Íbis, que nunca funcionou e se revelou um fracasso. Em 1912 publica na revista Águia e em 1914 cria os heterónimos Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis. Funda com Mário de Sá-Carneiro a revista Orpheu, introdutora do Modernismo em Portugal. Em 1917 publica com Almada Negreiros, Amadeo de Souza-Cardoso e Santa-Rita (“Geração de Orpheu”) o Portugal Futurista. O seu único livro, Mensagem, é publicado em 1934. Morre a 30 de novembro de 1935, na sequência de uma crise hepática.

Palavras-chave em Fernando Pessoa
Alma, Loucura, Absoluto, Sonho, Noite, Nevoeiro



Mensagem – Análise de textos
1.ª Parte
1.      O dos Castelos
»        Personificação da Europa
»        “Futuro do passado” designa uma alma que permanece.
2.      Ulisses
»        Lenda da criação da cidade de Lisboa por Ulisses
»        “O mito é o nada que é tudo”: apesar de fictício, legitima e explica a realidade
»        O mito está num plano superior à realidade, dada a sua intemporalidade
3.      D. Afonso Henriques
»        D. Afonso Henriques equiparado a Deus, tendo como missão o combate aos Infiéis
»        Vocabulário de dimensão sagrada: “vigília”, “infiéis”, “bênção”
»        Referência ao aparecimento de Deus a D. Afonso Henriques na Batalha de Ourique
4.      D. Dinis
»        Mitificação de D. Dinis pela sua capacidade visionária (plantou os pinhais que viriam a ser úteis nos Descobrimentos); construtor do futuro
»        O Presente é “noite”, “silêncio” e “Terra”, enquanto que o futuro é os pinhais, com som similar ao do mar, daí a “terra ansiando pelo mar”
5.      D. Sebastião rei de Portugal
»        A “loucura” ou “sonho” é a capacidade de desejar e ter iniciativa, para ultrapassar o estado de “cadáver adiado que procria” (simplesmente vive esperando a morte)
»        Convite a que outros busquem a grandeza para construir algo importante (“Minha loucura, outros que me a tomem”)
»        Para ser grande, Portugal deve ter loucura e desejar grandeza, para poder “renascer o país”
»        Enquanto figura histórica, D. Sebastião morreu em Alcácer-Quibir (“ficou meu ser que houve”) mas persiste enquanto lenda e exemplo de “loucura” (“não o que há”)
»        Apesar do fracasso, a batalha de Alcácer-Quibir é importante para motivar e recuperar Portugal do estado de “morte psicológica”

2.ª Parte
1.      O Infante
»        “Deus quer, o Homem sonha, a obra nasce”: descrição do processo de criação
»        Porque Deus quis unir a Terra, “criou” o Infante D. Henrique para que este impulsionasse a obra dos Descobrimentos
»        Mitificação do infante, criado e predestinado por Deus
»        Depois de criado o Império material (“Cumpriu-se o mar”), “o Império se desfez”, faltando “cumprir-se Portugal”, sob a forma de um Quinto Império espiritual
2.      Horizonte
»        O horizonte (“longe”, “linha severa”, “abstrata linha”) simboliza os limites
»        Descrição das tormentas da viagem (passado), da chegada (presente) e reflexão (projeção futura)
»        A esperança e a vontade são impulsionadoras da busca
»        O sucesso permite atingir o Conhecimento como recompensa
3.      Ascensão de Vasco da Gama
»        Capacidade de interferência de Vasco da Gama no plano mitológico das guerras entre deuses e gigantes
»        Ascensão de Vasco da Gama e dos Portugueses, porque devido aos seus feitos “se vão da lei da morte libertando”, perante pasmo quer no plano mitológico (deuses e gigantes) quer no plano terreno (pastor)
4.      O Mostrengo
»        Existência permanente do desconhecido
»        O homem do leme treme com medo do perigo, mas enfrenta-o (herói épico)
»        Imposição progressiva do homem do leme ao mostrengo
5.      Mar Português
»        Lamentação do “preço” dos descobrimentos e reflexão sobre a sua utilidade
»        O mar (“sal”, “lágrimas”) é de origem portuguesa – mitificação de Portugal
»        “Tudo vale a pena/Se a alma não é pequena”: o preço da busca é recompensado, neste caso tornando-se português o mar.
»        É no mar (desconhecido) que se espelha o céu
»        Cumprir o sonho é ultrapassar a dor
6.      Prece
»        Poema de transição da 2.ª para a 3.ª parte da obra
»        Descrição negativa do presente e consequente saudade do passado
»        “O frio morto em cinzas a ocultou:/A mão do vento pode erguê-la ainda.”: Debaixo das cinzas ainda resta alguma esperança
»        Demonstração do desejo de novas conquistas
»        Independentemente da conquista, interessa “que seja nossa” para recuperar a identidade e glória passadas.
»        O Passado é representado pela grandeza nacional (Descobrimentos) e o Presente pela saudade do passado, daí a necessidade de recuperar o fulgor e o tom de esperança implícito no poema

3.ª Parte
1.      O Quinto Império
»        “Triste de quem é feliz!”: Felicidade de quem não sonha, não passando de “cadáver adiado que procria”
»        Quem sonha está permanentemente descontente, e por isso tem objetivos
»        Depois de quatro Impérios, um novo nascerá, começado por D. Sebastião
»        D. Sebastião morreu, mas a mitificação permanente permite que o sonho persista e que possa ser prosseguido – “minha loucura, outros que me a tomem”
2.      Screvo meu livro à beira-mágoa
»        Descontente face à situação do mundo, o poeta vive na ânsia do sonho e da vinda do “Encoberto” para o despertar
»        O vocativo varia, assegurando apenas a vinda de um messias, independentemente da sua identidade
»        O sujeito poético apela à vinda do destinatário para “acordar” o povo
3.      Nevoeiro
»        Metáfora do Portugal presente, na indefinição, obscuridade e incerteza
»        O país vê-se perante uma crise de identidade e valores
»        Ao contrário da nação, o sujeito poético está inquieto, chorando a saudade do passado
»        É chegada a hora de preparar o futuro, despertar o reino e cumprir a missão já que ao nevoeiro sucede um novo dia
Estrutura da Obra
A Mensagem divide-se em três partes fundamentais:
1.ª Brasão (nascimento) – Fundação da nacionalidade e presença de heróis lendários e históricos, de Ulisses a D. Sebastião, passando por D. Afonso Henriques e D. Dinis
            2.ª Mar Português (realização) – ânsia do desconhecido e luta contra o mar. Apogeu dos portugueses nos Descobrimentos        
            3.ª O Encoberto (morte) – Morte de Portugal simbolizada no nevoeiro; afirmação do mito sebástico na figura do “Encoberto”; apelo e ânsia da construção do Quinto Império
            Estas três partes conduzem à ideia de renascimento futuro do país

Simbologia
Água: fonte e origem da vida, purificação, retorno
Ar: espiritualização, vento, sopro, intermediário entre céu e terra, vida invisível
Cinzas: morte, penitência, dor
Dia: nascimento, crescimento, plenitude e declínio da vida
Espada: estado militar, bravura, poder. Destrói mas restabelece e mantém paz e justiça
Fogo: purificação, regeneração, iluminação, destruição
Manhã: luz pura, vida paradisíaca, confiança no próprio, nos outros e na existência
Mar: dinâmica da vida, nascimento, transformação
Morte: fim absoluto do que é positivo e/ou vivo, aquilo que desaparece na evolução, acesso a uma vida nova de libertação das forças negativas
Noite: tristeza, angústia, começo da jornada, tempo de gestação e conspiração, imagem do inconsciente, trevas e fermento do futuro (preparação do dia)
Números:
            1: verticalidade, criador, centro cósmico e místico, revelação
            2: oposição, conflito, reflexão, equilíbrio, esforço, combate
            3: ordem intelectual e espiritual, divino, unidade do ser vivo, perfeição
4: solidez, sensível, terrestre, totalidade, universalidade
5: união, ordem, harmonia, equilíbrio, perfeição, sentidos, relação céu/terra
6: prova entre bem e mal
7: poder, pacto entre Deus e Homem, plenitude, perfeição, equilíbrio, realização total, ciclo concluído, consciência da vida
8: equilíbrio cósmico, época eterna, justiça, ressurreição e transfiguração
9: medida das gestações, plenitude, coroação de esforços
10: totalidade, criação do universo
12: divisões espácio-temporais, complexidade do universo, ciclo fechado
13: mau augúrio
17: número nefasto   
Pedra: Construção, sedentarização do Homem, relação entre terra e céu
Sonho: incontrolado, escapa à vontade do indivíduo, necessário ao equilíbrio biológico e mental
Terra: substância universal, matéria-prima, função maternal, regeneração



Funcionamento da Língua
Relações entre Palavras
»        Hiperonímia: a significação da palavra inclui a significação da outra
»        Hiponímia: a significação de uma é abrangida pela significação da outra
»        Holonímia: a palavra refere um todo enquanto que a outra refere a parte
»        Meronímia: a palavra refere uma parte do todo

Referências Deíticas
»        Pessoais: marcas do eu em relação ao outro
»        Temporais: Marcas do tempo em função do “agora”
»        Espaciais: Marcas de localização em função do ”aqui”

Expressões Nominais – Valores referenciais
»      Definidas: antecedidas por determinante artigo definido ou demonstrativo; são um nome próprio ou pronome pessoal
»      Valor referencial:
o   Específico: indica conhecimento compartilhado pelos interlocutores
o   Genérico: refere-se à classe de entidades de forma geral
»      Indefinidas: antecedidas por determinante artigo indefinido ou nulo
»      Valor referencial:
o   Específico: não há necessidade de acrescentar elementos para compreender a frase
o   Não Específico: refere um conjunto de propriedades não justificadas
o   Genérico: referem-se ao nome no seu sentido geral

Expressões Nominais – Valor do Adjetivo
»      Restritivo: se colocado depois do nome
»      Não restritivo: anteposto ao nome

Expressões Nominais – Valor das Orações Relativas
»      Relativas Explicativas: acrescenta informação sem alterar o sentido da frase. Tem valor explicativo e é colocada entre vírgulas
»      Relativas restritivas: limita ou especifica o antecedente, diferenciando-o. Tem valor restritivo e a sua ausência altera o significado da frase

Expressões Predicativas – Tempo
»        São os tempos verbais que conferem a noção de tempo, bem como do sujeito enunciador e do modo
»        Valores temporais
o   Simultaneidade: as ocorrências dão-se ao mesmo tempo
o   Anterioridade: ocorrência anterior ao tempo de enunciação
o   Posterioridade: ocorrência posterior ao tempo de enunciação



Expressões Predicativas – Aspeto
»        Lexical
o   Instantâneo: situações pontuais
o   Prolongado: pressupõem uma certa duração
o   Atividades: podem, em teoria, prolongar-se indefinidamente
o   Estados: exprimem sentimentos ou qualidades, pelo que são independentes do tempo
»        Gramatical
o   Perfetivo: a ação está concluída
o   Imperfetivo: a ação é prolongada e ainda não está concluída
o   Genérico: situações intemporais, permanentes
o   Habitual: repete-se por tempo teoricamente ilimitado
o   Iterativo: repete-se periodicamente (habitual não fixo)
o   Pontual: ação momentânea. É normalmente um evento instantâneo
o   Durativo: ação prolonga-se durante algum tempo
Podem ser combinados vários aspetos

Expressões Predicativas – Modalidade
»        Modalidade Epistémica: atitude do locutor em relação ao que enuncia
o   Valor de certeza
o   Valor de probabilidade
o   Valor de possibilidade
»        Modalidade Deôntica: O locutor procura agir sobre o interlocutor
o   Valor de obrigação
o   Valor de permissão
»        Modalidade Apreciativa: Exprime um juízo valorativo com valor de certeza

Atos de fala e intenção comunicativa
            Um ato de fala é um comportamento verbal, governado por regras que asseguram intenções comunicativas.
Tipos de atos de fala:
»        Assertivos: transmitem uma posição ou verdade assumida por quem fala
»        Declarativos: Exprimem uma realidade criada pelo próprio ato de fala
»        Expressivos: expressam sentimentos e emoções de quem fala
»        Diretivos: pretendem conduzir o outro a uma ação
»        Compromissivos: compromisso assumido pelo sujeito que fala
»        Declarativos assertivos: reúnem os objetivos dos declarativos e dos assertivos
Estes podem ser:
»        Diretos: o que se diz é o que se pretende dizer

»        Indiretos: é feito indiretamente um pedido, ordem ou convite

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