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.

Personagens do Auto da Barca do Inferno

01/10/2009

Análise das personagens 

          O Fidalgo (Don Anrique)
Adereços que o caracterizam:
- pajem: desprezo pelos mais pobres
- manto: vaidoso
- cadeira: julgava-se importante e poderoso

Argumentos de Defesa:
- Barca do Inferno é desagradável
- tem alguém na Terra a rezar por ele
- é “fidalgo de solar” e por isso deve entrar na barca do Céu
- é nobre e importante

Tipo:
- nobreza

Argumentos de acusação:
- ter levado uma vida de prazeres, sem se importar com ninguém
- ter sido tirano para com o povo
- ser muito vaidoso
- desprezava o povo

Referência ao pai de Don Anrique porque:
- é uma denuncia social, porque também o pai do Fidalgo já tinha entrado na Barca do Inferno, isto é, toda a classe nobre tinha os mesmos pecados

A movimentação dele em cena:
- 1º foi á barca do Diabo que lhe explica para onde vai a barca e falando sempre em tom de ironia
- depois foi à barca do Paraíso para tentar a sua sorte, mas o Anjo acusa-o de tirania e diz-lhe de q maneira nenhuma pode lá entrar
- o Fidalgo volta para a Barca do Inferno e o Diabo explica-lhe todos os seus pecados, fazendo com que ele fique muito triste e arrependido

Momentos psicológicos da personagem:
- ao princípio o Fidalgo está sereno e seguro que irá para o Paraíso
- dirige-se à barca do Anjo, arrogante, e fica irritado porque ele não lhe responde e mostra-se arrependido e desanimado por ter confiado no seu “Estado”
- no fim dirige-se ao Diabo, mais humilde, pendindo-lhe que o deixe regressar à Terra p ir ter com a amante

Crítica de Gil Vicente nesta cena:
- os nobres viviam como queriam (vida de luxúria)
- pensavam que bastava rezar e ir à missa para ir para o Céu

Características dadas às mulheres desse tempo:
- mentirosas
- infiéis
- falsas
- fingidas
- hipócritas

Caracterização do Fidalgo:
- nobre (fidalgo de solar)
- vaidoso
- presunçoso do seu estado social
- o seu longo manto e o criado que carrega a cadeira representam bem a sua vaidade e ostentação
- a forma como reage perante o Diabo e o Anjo revelam a sua arrogância ( de quem está habituado a mandar e a ter tudo)
- apresenta-se como alguém importante
- despreza a barca do Diabo chamando-lhe “cortiço”
- a sua conversa com o Diabo revela-nos q além da sua mulher tinha uma amante, mas q ambas o enganavam pois a mulher quando ele morreu chorava mas era de felicidade e a amante antes d ele morrer já estava c outro
- o Fidalgo é, pois, uma personagem tipo q representa a nobreza, os seus vícios, tirania, vaidade, arrogância e presunção

Desenlace:
- Inferno



O Onzeneiro (Usuário)

Símbolos cénicos:
- bolsão: representa o dinheiro

Tipo:
- burguesia

“Oh! Que má-hora venhais,/ onzeneiro, meu parente!”:
- o Diabo revela, com este tratamento, que Onzeneiro tem semelhanças com  ele, é como se fossem membros da mesma família
- o Diabo sempre o ajudou a fazer o mal, a enganar os outros
- agora os papéis invertem-se: é a vez de o Onzeneiro ajudar o Diabo

Argumentos de defesa:
- ter morrido sem esperar
- não ter tido tempo de “apanhar” mais dinheiro (esta queixa mostra que para esta personagem o dinheiro era importante)
- jura ter o bolsão vazio
- precisa de ir à Terra para ir buscar mais dinheiro (para comprar o Paraíso)

Argumentos de acusação:
- Anjo: acusa-o de levar um bolsão cheio de dinheiro e o coração cheio de pecados, cheio de amor pelo dinheiro
- ser avarento

O Onzeneiro é condenado pelo Anjo ao Inferno porque:
- leva o coração cheio de pecados, cheio de amor pelo dinheiro e o bolsão representa esse dinheiro

O Onzeneiro interpreta a recusa do Anjo com:
- que por não ter dinheiro não pode entrar no Paraíso
- ele pensa q com o dinheiro pode comprar tudo e resolver tudo

A vida do Onzeneiro:
- avareza (só pensa em dinheiro)

Gil Vicente dá esta pobre caracterização à vida da personagem porque:
- todas as personagens são personagens tipo
- não podem representar características pessoais

Desenlace:
- Inferno


 Parvo (Joanne)

Tipo:
- povo (uma pessoa pobre de espírito)

Não tem referência ao passado porque:
- não agiu com maldade
- não tem pecados 

Símbolos cénicos:
- não traz porque os símbolos cénicos estão relacionados com a vida Terrena e os pecados cometidos
- o Parvo não tem qualquer tipo de pecados

Argumentos de defesa:
- Anjo: tudo o que fez foi sem maldade e é simples

O Parvo não usa qualquer tipo de argumento para convencer o Anjo a deixá-lo entrar no Paraíso porque:
- não teve tempo de dizer nada, a sua entrada naquela barca foi autorizada de imediato
- o Anjo deixa-o entrar porque tudo o que fez foi sem maldade

“Quem és tu? / Samica alguém”:
- revela a sua simplicidade
- a resposta está relacionada com o seu destino q é o Paraíso

Caracterização desta personagem:
- não traz símbolos cénicos com ele porque não tem qualquer tipo de pecados
- com simplicidade, ingenuidade e graça, auto-caracteriza-se ao Diabo como “tolo”
- queixa-se de ter morrido
- as suas atitudes ao longo da cena são descontraídas, o que irrita o Diabo que o quer na sua barca
- o Diabo é insultado por ele
- esses insultos revelam a sua pobreza de espírito
- apresenta-se ao Anjo com “Samica alguém” e este diz-lhe q entrará na sua barca, porque tudo o que fez foi sem maldade

A minha opinião sobre esta cena:
- tem uma intenção lúdica: fazendo divertir quem está a assistir a esta peça
- também tem uma intenção de crítica: dizendo q os parvos são pessoas pobres de espírito e não têm intenção de fazer mal
- ajuda muito na crítica e faz os cómicos

Desenlace:
- fica no caís e entra com os Quatro Cavaleiros


 Sapateiro (Joanatão)

Símbolos Cénicos:
- avental: simboliza a profissão
- carregado se formas de sapatos: simbolizam a sua profissão e vem carregado pelos seus pecados

Tipo:
- povo (artesão)

Argumentos de acusação:
- roubava
- enganava
- religião mal praticada

Argumentos de defesa: (práticas religiosas)
- rezava e ia à missa (o fidalgo usou a mesma defesa)
- fazia ofertas à igreja
- confessava-se
- fez todas as práticas religiosas

Crítica feita por Gil Vicente a todas as rezas:
- forma superficial de como os católicos praticavam a religião
- julgavam que as rezas, missas, comunhões, tinham mais valor que praticar o bem

Desenlace:
- Inferno


O Frade (Frei Babriel)

Símbolos cénicos:



Críticas com esses símbolos:
- desajuste entre a vida religiosa e a vida que ele levava ( vida mundana)
- os símbolos representavam a vida de prazeres que ele levava, o que o afastava do seu dever à crítica religiosa


Tipo:
- clero (mundano)

Argumentos de Acusação:
- era mundano
- não respeitou os votos de castidade e de pobreza

O Frade não nega as acusações feitas, pois:
- pensa que o facto de ser Frade e o seu hábito o vão salvar dos seus pecados

Argumentos de Defesa:
- ser Frade
- rezou muito

Apresenta-se cm cortesão:
- o que revela q ele frequentava a corte e os seus prazeres, era um frade mundano

“Gentil padre mundanal”:
- contradição: encontra-se na palavra “mundanal” e “gentil”
- o Frade deveria ser uma pessoa dedicada à alma, ao espírito, mas é mundanal, vive os prazeres do mundo, por isso existe aqui uma contradição

“Diabo-(...) E não os punham lá grosa / no vosso convento santo?
Frade- E eles faziam outro tanto!” revela que:
- havia uma quebra de votos de castidade ao hábito comum entre eles
- esta afirmação alarga a crítica a toda a classe social, pois o Frade é uma personagem tipo, representando toda uma classe social

Uso do facto de ser Frade naquele tempo:
- pretende mostrar que o clero se mostrava superior
- poderia fazer o que quisesse sem ser condenado
- mal-estar na sociedade por serem cada vez mais frequentes os Frades ricos e poderosos

O Anjo recusa-se a falar com o Frade porque:
- tem vergonha do seu réu
- não tinha coragem de falar com alguém do clero com tantos pecados (repugnante)

Frade aceita a sentença porque:
- viu que o Anjo não quis falar com ele
- porque não cumpriu as regras que deveria ter cumprido
- se o Anjo se recusa a falar com ele é porque todos os seus pecados foram graves

Caracterização do Frade:
- auto-caracteriza-se “cortesão” (frequentava a corte) o que entra em contradição com a sua classe
- sabe dançar tordilhão e esgrimir às qualidades típicas de um nobre
- é alegre pois chega ao cais a cantar e a dançar
- tal como os outros Frades não cumpriu o voto de castidade nem de pobreza, como se comprovava com as suas palavras
- está convencido que por ser membro da Igreja tem entrada directa no Paraíso
- personagem tipo através da qual se critica o clero

 Desenlace:
- Inferno
 

A Alcoviteira (Brízida Vaz)

Símbolos Cénicos:
- seiscentos virgos postiços (hímenes das virgens)
- três arcas de feitiços
- três armários de mentir
- jóias de vestir
- guarda-roupa
- casa movediça
- estrado de cortiça
- dois coxins
(todos estes símbolos representavam a sua actividade de alcoviteira ligada à prostituição)

Tipo:
- alcoviteira

Quando o Diabo sabe que é Brízida Vaz que está no cais ele fica:
- contente: sabe que ela tem muitos pecados e por isso é mais passageira para a sua barca
- surpreso / admirado : não esperava por ela tão cedo
- surpreendido

Com o campo semântico da mentira ela revela que:
- é hipócrita
- tenta fazer-se de vítima perante o Diabo para convencê-lo do q lhe interessa
- hábil mentirosa

Quando o Diabo a convida a entrar ela:
- diz, com alguma arrogância, que não entra sem o Fidalgo

Perante o Anjo, Brízida Vaz usa outras tácticas:
- a sedução: muda o seu tom de voz tentando seduzir o Anjo
- usa vocabulário de cariz religioso: para o Anjo ter pena dela

Quando fala com o Anjo, ela usa um vocabulário de cariz religioso para:
- ele ter pena dela
- a deixar entrar na sua Barca
- a achar uma boa pessoa

Argumentos de Acusação:
- viveu uma má vida (prostituição)

Argumentos de defesa:
- diz que já sofreu muito
- que arranjou muitas “meninas” para elementos do clero



Caracterização de Brízida Vaz:
- chegando ao cais na barca do Inferno, recusa-se a entrar sem o Fidalgo, provavelmente eram conhecidos
- diz que não é a barca do Diabo que  procura
- leva vários elementos cénicos relacionados com a sua profissão de alcoviteira
- está sempre confiante de que vai entrar na barca do Anjo
- defende-se dizendo que sofreu muito, como ninguém, que arranjou muitas “meninas” para elementos do clero e que está orgulhosa por ter arranjado “dono” para todas as suas “meninas”
- quando vai à barca do Anjo muda completamente a sua atitude, usando mais o vocabulário de cariz religioso e tentando seduzir o Anjo e fazer-se de boa pessoa

Desenlace:
- Inferno


Judeu (Semah Fará)

Símbolos Cénicos:
- bode: representa a sua religião

Tipo:
- Judeu

Logo que chega ao cais o Judeu dirige-se para a barca do Inferno porque:
- sabe que não será aceite na barca do Anjo, já que em vida nunca foi aceite nos lugares dos Cristãos
- os Judeus eram muito mal vistos na época e nem poderia admitir a hipótese de entrar na barca do Anjo

Para entrar na Barca do Inferno ele usa:
- o dinheiro

Ele usa o dinheiro porque:
- era uma forma de mostrar que os Judeus tinham grande poder económico e que estavam ligados ao dinheiro

O Judeu recusa deixar o bode em terra porque:
- quer ser reconhecido como Judeu
- não recusa a sua religião

Argumentos de acusação (o Parvo acusa-o de):
- roubar a cabra
- ter cometido várias ofensas à religião cristã e à igreja, comendo carne no dia de jejum
- ser Judeu

Em termos de contexto histórico essa acusação:
- revela que os Cristãos odiavam os Judeus
- acusavam-nos de enriquecer à custa de roubos de Natureza diversa
- acusavam-nos de ofender a religião católica, cometendo diversas profanações


Desenlace:
- fica no cais (porque ninguém o quer)


O Corregedor e O Procurador

Símbolos Cénicos:
- Corregedor: vara e processos
- Procurador: livros jurídicos

Tipo:
- Corregedor: Juiz corrupto
- Procurador: Funcionário da Coroa corrupto

O Diabo cumprimenta o Corregedor com “Oh amador de perdiz” porque:
- era uma pessoa corrupta
- a perdiz era um símbolo de corrupção

A forma de como o Corregedor inicia diálogo com o Diabo aproxima-se da forma com o Fidalgo também o fez

O Corregedor usa muito o Latim porque:
- é uma língua muito usada em direito

O Diabo responde-lhe em Latim Macarrónico porque:
- era para ridicularizar a linguagem utilizada na justiça
- para mostrar que essa linguagem não servia de nada
- poderiam sobre falar bem Latim mas não sabiam aplicar as leis

O Corregedor pergunta “Há’ q-ui meirinho do mar?” porque:
- ele estava habituado a ser servido

O Corregedor pergunta se o poder do barqueiro infernal é maior do que o do próprio Rei porque:
- ele na Terra tinha um grande poder
- não admitia que mandassem nele

Argumentos de acusação do Procurador:
- não tem tempo de se confessar

Argumentos de acusação do Corregedor (o Diabo acusa-o de):
- ter aceitado subornos (ser corrupto)
- ter aceitado subornos até de Judeus (muito mal vistos naquele tipo)
- confessou-se mas mentiu

Argumentos de defesa do Corregedor:
- era a sua mulher que aceitava os subornos

Acho que o argumento usado de defesa do réu foi:
- errado
- o Diabo saberia de tudo
- ele não deveria estar a mentir
- não devia estar a acusar a sua mulher porque depois também ela era condenada

“Irês ao lago dos danados / e verês os escrivães / coma estão tão prosperados” quer dizer que:
- o Corregedor, quando for para o Inferno, vai encontrar os seus colegas (Homens ligados à justiça)

Gil Vicente julgou em simultâneo o Corregedor e o Procurador porque:
- ambos passavam informação
- ambos faziam parte da justiça
(havia cumplicidade entre a justiça e os assuntos do Rei, ambos eram corruptos)

A confissão para eles:
- não era importante: só se confessavam em situações de risco e não diziam a verdade

Quando o Corregedor e o Procurador se aproximam do Anjo, ele:
- reage mal
- fica irritado
- manda-lhes uma praga: atitude nada normal do Anjo

O Parvo acusa-os de:
- roubar coelhos e perdizes
- profanar nos campanários: levavam a religião de uma forma superficial

Desenlace:
- Inferno

No Inferno o Corregedor dialoga com Brízida Vaz porque:
- já se conheceriam da vida terrena


O Enforcado


Símbolos Cénicos:
- baraço (corda que traz ao pescoço)

Tipo:
- povo (criminoso condenado)

Argumentos de defesa:
- ele havia sido perdoado por Deus ao morrer enforcado
- já tinha sofrido o castigo na prisão
- Garcia Moniz tinha-lhe dito que se se enforcasse iria para o paraíso

Argumentos de Acusação:
- o crime que cometeu (ser criminoso)
- ser ingénuo

 

Os Quatro Cavaleiros


Símbolos Cénicos:
- hábito da ordem de Cristo
- espadas

Tipo:
- cruzados

Argumentos de Defesa:
- dizem que morreram a lutar contra os mouros em nome de Cristo

Quando chegam ao cais chegam a cantar. Essa cantiga mostra:
- aos mortais que esta vida é uma passagem e que terão de passar sempre naquele cais onde serão julgados

Os destinatários desta mensagem são:
- os mortais
- os Homens pecadores


Nessa cantiga está contida a moralidade da peça porque:
- fala da transitoriadade da vida
- fala da inavitabilidade do destino final
- fala do destino final que está de acordo com aquilo que foi feito na vida Terrena

Os cavaleiros não foram acusados pelo Diabo porque:
- merecem entrar na barca do Anjo
- morreram a lutar pela fé cristã, contra os infiéis, o que os livrou de todos os pecados
- esta cena revela a mentalidade medieval da apologia do espírito da cruzada

Desenlace:
- Barca do Anjo

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