21/09/2014

Fernando Pessoa e a Mensagem

Enquadramento histórico
»        Início do século XX
»        Avanço tecnológico e científico em contraste com as más condições de trabalho
»        Capitalismo conduz à I Guerra Mundial (1914-1918) e Revolução russa (1917)
»        Necessidade de repensar a sociedade e o próprio Homem:
o   Nietzsche põe em causa os fundamentos de então e sugere uma reavaliação dos valores para viver a vida na sua plenitude;
o   Freud demonstra a complexidade do homem e o seu lado inconsciente;
o   Einstein põe em causa grande parte do conhecimento científico.

Arte
»        Em rutura com a tradição, os artistas optam por uma abordagem mais irónica e provocatória
»        Na literatura, os protagonistas passam de heróis a seres vulgares
»        Enaltecido pelas correntes literárias anteriores, o indivíduo perde a sua identidade e unidade, criando “outros eus” (fragmentação do eu)
»        Maior liberdade na linguagem, dando sentidos metafóricos novos às palavras
»        Reinventam-se as formas, usam-se técnicas novas e experimentam-se caminhos desconhecidos
»        Movimentos:
o   Modernismo: diversidade e pluralidade; caminho pessoal de questionação e reinvenção dos valores
o   Futurismo: movimento, velocidade e máquina como demonstração de força do indivíduo
o   Cubismo: fracionamento da realidade
o   Abstracionismo: recusa de representação do real
o   Surrealismo: apelo à imaginação, sonho e loucura; escrita automática

Fernando Pessoa
            Nasce a 13 de junho de 1888, em Lisboa. Emigra aos 7 anos para Durban, África do Sul, onde obtém excelente rendimento escolar. Regressa a Lisboa em 1905, onde frequenta dois anos o Curso Superior de Letras. Monta a tipografia Íbis, que nunca funcionou e se revelou um fracasso. Em 1912 publica na revista Águia e em 1914 cria os heterónimos Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis. Funda com Mário de Sá-Carneiro a revista Orpheu, introdutora do Modernismo em Portugal. Em 1917 publica com Almada Negreiros, Amadeo de Souza-Cardoso e Santa-Rita (“Geração de Orpheu”) o Portugal Futurista. O seu único livro, Mensagem, é publicado em 1934. Morre a 30 de novembro de 1935, na sequência de uma crise hepática.

Palavras-chave em Fernando Pessoa
Alma, Loucura, Absoluto, Sonho, Noite, Nevoeiro



Mensagem – Análise de textos
1.ª Parte
1.      O dos Castelos
»        Personificação da Europa
»        “Futuro do passado” designa uma alma que permanece.
2.      Ulisses
»        Lenda da criação da cidade de Lisboa por Ulisses
»        “O mito é o nada que é tudo”: apesar de fictício, legitima e explica a realidade
»        O mito está num plano superior à realidade, dada a sua intemporalidade
3.      D. Afonso Henriques
»        D. Afonso Henriques equiparado a Deus, tendo como missão o combate aos Infiéis
»        Vocabulário de dimensão sagrada: “vigília”, “infiéis”, “bênção”
»        Referência ao aparecimento de Deus a D. Afonso Henriques na Batalha de Ourique
4.      D. Dinis
»        Mitificação de D. Dinis pela sua capacidade visionária (plantou os pinhais que viriam a ser úteis nos Descobrimentos); construtor do futuro
»        O Presente é “noite”, “silêncio” e “Terra”, enquanto que o futuro é os pinhais, com som similar ao do mar, daí a “terra ansiando pelo mar”
5.      D. Sebastião rei de Portugal
»        A “loucura” ou “sonho” é a capacidade de desejar e ter iniciativa, para ultrapassar o estado de “cadáver adiado que procria” (simplesmente vive esperando a morte)
»        Convite a que outros busquem a grandeza para construir algo importante (“Minha loucura, outros que me a tomem”)
»        Para ser grande, Portugal deve ter loucura e desejar grandeza, para poder “renascer o país”
»        Enquanto figura histórica, D. Sebastião morreu em Alcácer-Quibir (“ficou meu ser que houve”) mas persiste enquanto lenda e exemplo de “loucura” (“não o que há”)
»        Apesar do fracasso, a batalha de Alcácer-Quibir é importante para motivar e recuperar Portugal do estado de “morte psicológica”

2.ª Parte
1.      O Infante
»        “Deus quer, o Homem sonha, a obra nasce”: descrição do processo de criação
»        Porque Deus quis unir a Terra, “criou” o Infante D. Henrique para que este impulsionasse a obra dos Descobrimentos
»        Mitificação do infante, criado e predestinado por Deus
»        Depois de criado o Império material (“Cumpriu-se o mar”), “o Império se desfez”, faltando “cumprir-se Portugal”, sob a forma de um Quinto Império espiritual
2.      Horizonte
»        O horizonte (“longe”, “linha severa”, “abstrata linha”) simboliza os limites
»        Descrição das tormentas da viagem (passado), da chegada (presente) e reflexão (projeção futura)
»        A esperança e a vontade são impulsionadoras da busca
»        O sucesso permite atingir o Conhecimento como recompensa
3.      Ascensão de Vasco da Gama
»        Capacidade de interferência de Vasco da Gama no plano mitológico das guerras entre deuses e gigantes
»        Ascensão de Vasco da Gama e dos Portugueses, porque devido aos seus feitos “se vão da lei da morte libertando”, perante pasmo quer no plano mitológico (deuses e gigantes) quer no plano terreno (pastor)
4.      O Mostrengo
»        Existência permanente do desconhecido
»        O homem do leme treme com medo do perigo, mas enfrenta-o (herói épico)
»        Imposição progressiva do homem do leme ao mostrengo
5.      Mar Português
»        Lamentação do “preço” dos descobrimentos e reflexão sobre a sua utilidade
»        O mar (“sal”, “lágrimas”) é de origem portuguesa – mitificação de Portugal
»        “Tudo vale a pena/Se a alma não é pequena”: o preço da busca é recompensado, neste caso tornando-se português o mar.
»        É no mar (desconhecido) que se espelha o céu
»        Cumprir o sonho é ultrapassar a dor
6.      Prece
»        Poema de transição da 2.ª para a 3.ª parte da obra
»        Descrição negativa do presente e consequente saudade do passado
»        “O frio morto em cinzas a ocultou:/A mão do vento pode erguê-la ainda.”: Debaixo das cinzas ainda resta alguma esperança
»        Demonstração do desejo de novas conquistas
»        Independentemente da conquista, interessa “que seja nossa” para recuperar a identidade e glória passadas.
»        O Passado é representado pela grandeza nacional (Descobrimentos) e o Presente pela saudade do passado, daí a necessidade de recuperar o fulgor e o tom de esperança implícito no poema

3.ª Parte
1.      O Quinto Império
»        “Triste de quem é feliz!”: Felicidade de quem não sonha, não passando de “cadáver adiado que procria”
»        Quem sonha está permanentemente descontente, e por isso tem objetivos
»        Depois de quatro Impérios, um novo nascerá, começado por D. Sebastião
»        D. Sebastião morreu, mas a mitificação permanente permite que o sonho persista e que possa ser prosseguido – “minha loucura, outros que me a tomem”
2.      Screvo meu livro à beira-mágoa
»        Descontente face à situação do mundo, o poeta vive na ânsia do sonho e da vinda do “Encoberto” para o despertar
»        O vocativo varia, assegurando apenas a vinda de um messias, independentemente da sua identidade
»        O sujeito poético apela à vinda do destinatário para “acordar” o povo
3.      Nevoeiro
»        Metáfora do Portugal presente, na indefinição, obscuridade e incerteza
»        O país vê-se perante uma crise de identidade e valores
»        Ao contrário da nação, o sujeito poético está inquieto, chorando a saudade do passado
»        É chegada a hora de preparar o futuro, despertar o reino e cumprir a missão já que ao nevoeiro sucede um novo dia
Estrutura da Obra
A Mensagem divide-se em três partes fundamentais:
1.ª Brasão (nascimento) – Fundação da nacionalidade e presença de heróis lendários e históricos, de Ulisses a D. Sebastião, passando por D. Afonso Henriques e D. Dinis
            2.ª Mar Português (realização) – ânsia do desconhecido e luta contra o mar. Apogeu dos portugueses nos Descobrimentos        
            3.ª O Encoberto (morte) – Morte de Portugal simbolizada no nevoeiro; afirmação do mito sebástico na figura do “Encoberto”; apelo e ânsia da construção do Quinto Império
            Estas três partes conduzem à ideia de renascimento futuro do país

Simbologia
Água: fonte e origem da vida, purificação, retorno
Ar: espiritualização, vento, sopro, intermediário entre céu e terra, vida invisível
Cinzas: morte, penitência, dor
Dia: nascimento, crescimento, plenitude e declínio da vida
Espada: estado militar, bravura, poder. Destrói mas restabelece e mantém paz e justiça
Fogo: purificação, regeneração, iluminação, destruição
Manhã: luz pura, vida paradisíaca, confiança no próprio, nos outros e na existência
Mar: dinâmica da vida, nascimento, transformação
Morte: fim absoluto do que é positivo e/ou vivo, aquilo que desaparece na evolução, acesso a uma vida nova de libertação das forças negativas
Noite: tristeza, angústia, começo da jornada, tempo de gestação e conspiração, imagem do inconsciente, trevas e fermento do futuro (preparação do dia)
Números:
            1: verticalidade, criador, centro cósmico e místico, revelação
            2: oposição, conflito, reflexão, equilíbrio, esforço, combate
            3: ordem intelectual e espiritual, divino, unidade do ser vivo, perfeição
4: solidez, sensível, terrestre, totalidade, universalidade
5: união, ordem, harmonia, equilíbrio, perfeição, sentidos, relação céu/terra
6: prova entre bem e mal
7: poder, pacto entre Deus e Homem, plenitude, perfeição, equilíbrio, realização total, ciclo concluído, consciência da vida
8: equilíbrio cósmico, época eterna, justiça, ressurreição e transfiguração
9: medida das gestações, plenitude, coroação de esforços
10: totalidade, criação do universo
12: divisões espácio-temporais, complexidade do universo, ciclo fechado
13: mau augúrio
17: número nefasto   
Pedra: Construção, sedentarização do Homem, relação entre terra e céu
Sonho: incontrolado, escapa à vontade do indivíduo, necessário ao equilíbrio biológico e mental
Terra: substância universal, matéria-prima, função maternal, regeneração



Funcionamento da Língua
Relações entre Palavras
»        Hiperonímia: a significação da palavra inclui a significação da outra
»        Hiponímia: a significação de uma é abrangida pela significação da outra
»        Holonímia: a palavra refere um todo enquanto que a outra refere a parte
»        Meronímia: a palavra refere uma parte do todo

Referências Deíticas
»        Pessoais: marcas do eu em relação ao outro
»        Temporais: Marcas do tempo em função do “agora”
»        Espaciais: Marcas de localização em função do ”aqui”

Expressões Nominais – Valores referenciais
»      Definidas: antecedidas por determinante artigo definido ou demonstrativo; são um nome próprio ou pronome pessoal
»      Valor referencial:
o   Específico: indica conhecimento compartilhado pelos interlocutores
o   Genérico: refere-se à classe de entidades de forma geral
»      Indefinidas: antecedidas por determinante artigo indefinido ou nulo
»      Valor referencial:
o   Específico: não há necessidade de acrescentar elementos para compreender a frase
o   Não Específico: refere um conjunto de propriedades não justificadas
o   Genérico: referem-se ao nome no seu sentido geral

Expressões Nominais – Valor do Adjetivo
»      Restritivo: se colocado depois do nome
»      Não restritivo: anteposto ao nome

Expressões Nominais – Valor das Orações Relativas
»      Relativas Explicativas: acrescenta informação sem alterar o sentido da frase. Tem valor explicativo e é colocada entre vírgulas
»      Relativas restritivas: limita ou especifica o antecedente, diferenciando-o. Tem valor restritivo e a sua ausência altera o significado da frase

Expressões Predicativas – Tempo
»        São os tempos verbais que conferem a noção de tempo, bem como do sujeito enunciador e do modo
»        Valores temporais
o   Simultaneidade: as ocorrências dão-se ao mesmo tempo
o   Anterioridade: ocorrência anterior ao tempo de enunciação
o   Posterioridade: ocorrência posterior ao tempo de enunciação



Expressões Predicativas – Aspeto
»        Lexical
o   Instantâneo: situações pontuais
o   Prolongado: pressupõem uma certa duração
o   Atividades: podem, em teoria, prolongar-se indefinidamente
o   Estados: exprimem sentimentos ou qualidades, pelo que são independentes do tempo
»        Gramatical
o   Perfetivo: a ação está concluída
o   Imperfetivo: a ação é prolongada e ainda não está concluída
o   Genérico: situações intemporais, permanentes
o   Habitual: repete-se por tempo teoricamente ilimitado
o   Iterativo: repete-se periodicamente (habitual não fixo)
o   Pontual: ação momentânea. É normalmente um evento instantâneo
o   Durativo: ação prolonga-se durante algum tempo
Podem ser combinados vários aspetos

Expressões Predicativas – Modalidade
»        Modalidade Epistémica: atitude do locutor em relação ao que enuncia
o   Valor de certeza
o   Valor de probabilidade
o   Valor de possibilidade
»        Modalidade Deôntica: O locutor procura agir sobre o interlocutor
o   Valor de obrigação
o   Valor de permissão
»        Modalidade Apreciativa: Exprime um juízo valorativo com valor de certeza

Atos de fala e intenção comunicativa
            Um ato de fala é um comportamento verbal, governado por regras que asseguram intenções comunicativas.
Tipos de atos de fala:
»        Assertivos: transmitem uma posição ou verdade assumida por quem fala
»        Declarativos: Exprimem uma realidade criada pelo próprio ato de fala
»        Expressivos: expressam sentimentos e emoções de quem fala
»        Diretivos: pretendem conduzir o outro a uma ação
»        Compromissivos: compromisso assumido pelo sujeito que fala
»        Declarativos assertivos: reúnem os objetivos dos declarativos e dos assertivos
Estes podem ser:
»        Diretos: o que se diz é o que se pretende dizer

»        Indiretos: é feito indiretamente um pedido, ordem ou convite

16/10/2013

Heterónimos Ficha de Trabalho

Verifique os seus conhecimentos relativamente à criação heteronímica pessoana.

1. Complete os espaços do texto que se segue com as palavras/expressões apresentadas lateralmente.

Despersonalizar-se
Heterónimos
Autónomas
Pensamento
Apesar de
Histeroneurastenia
Fingimento Poético
Psiquiátrico
Heteronímia
Criadoras
Personagens
Adolfo Casais Monteiro
Simular
Emoções
A génese da _____________ foi explicada pelo próprio Fernando Pessoa numa carta a ___________________. A sua “pequena humanidade” foi o resultado de um problema __________, denominado de ______________. Associado a este, surge a tendência excessiva de Pessoa em ___________, ____________, o que se relaciona com o ____________  _____________.
Com a criação dos ______________, Pessoa quis criar nem mais nem menos do que ________________ dramáticas.
Caeiro, Reis e Campos são, então, personagens _______________ cujas _____________, cujos sentimentos e cujo ______________ não são os de Pessoa. ______________ fictícias, são personagens ___________________.

2. Ligue os segmentos frásicos das duas colunas.

Grelha de correcção

Alberto Caeiro
1.


1. Com Alberto Caeiro,
a) serve de exemplo a Alberto Caeiro e a Ricardo Reis, adeptos da áurea mediocritas.
2.


2. Caeiro é o chefe
b) de uma pequena companhia teatral que representa a sua peça no palco da poesia.
3.


3. Para todos eles, incluindo o ortónimo,
c) que é vivido por Alberto Caeiro, ao privilegiar as sensações oferecidas pelos diversos órgãos sensoriais.
4.


4. O  poeta de “O Guardador de Rebanhos”
d) Pessoa quis criar um pólo de referência para as suas outras personagens.
5.


5. Alberto Caeiro recusa o pensamento metafísico,
e) é autodidata, de vivência simples e concreta.
6.


6. A simplicidade da vida rural
f) Caeiro foi o mestre.
7.


7. O puro sensacionismo é aquele
g) aderindo espontaneamente às coisas, tais como são, gozando-as despreocupadamente.
8.


8. O “mestre” vive
h) são versos de Caeiro que refletem a sua antimetafísica, afirmando o primado dos sentidos.
9.


9. “Pensar incomoda como andar à chuva” e “eu não tenho filosofia: tenho sentidos…”
i) afirmando que “pensar é não compreender”.

Grelha de correcção

Ricardo Reis
1.


1. Ricardo Reis, tal como Caeiro,
a) considerando o seu exercício mental em desejar atingir a felicidade de um modo comedido.
2.


2. Apesar de apresentar alguns pontos comuns com o seu mestre,
b) recorre à ode, à mitologia e aos latinismos.
3.


3. O heterónimo de raízes clássicas vai abdicar dos prazeres intensos,
c) são alguns dos conselhos de Ricardo Reis, seguidor do carpe diem horaciano.
4.


4. Evitar as preocupações e gozar moderadamente o momento presente
d) revela-se pagão aceitando a ordem das coisas ao gozar a vida, pensando o menos possível.
5.


5. Adotando uma postura de tranquilidade imperturbável,
e) comprovado pelo recorrente uso do imperativo e do vocativo, de modo a transmitir uma lição de vida.
6.


6. Como um clássico, este heterónimo
f) Ricardo Reis faz um exercício de autodisciplina para poder viver mais tranquilamente.
7.


7. Na obra de Ricardo Reis, perpassa um tom didático
g) tal como preconizava o estoicismo.
8.


8. Os ideais clássicos de equilíbrio e harmonia aplicam-se a Ricardo Reis,
h) designada de ataraxia, o homem poderá alcançar a felicidade, na perspectiva do heterónimo Ricardo Reis.


Grelha de correcção

Álvaro de Campos
1.


1. Álvaro de Campos é adepto do futurismo,
a) porque é o resultado de uma busca reflectida e consciente para atingir a plenitude.
2.


2. Campos é o heterónimo que apresenta um percurso evolutivo,
b) pontos comuns com o seu criador, nomeadamente o tédio existencial e a saudade da infância.
3.


3. Após um período de cansaço e de tédio,
c) quando se dá conta da incapacidade de realização.
4.


4. A fase futurista-sensacionista de Campos concretiza-se
d) Campos entrega-se a um histerismo de sensações.
5.


5. O sensacionismo de Campos é diferente do de Caeiro,
e) pois nega a visão aristotélica da arte, procurando uma nova concepção de beleza.
6.


6. A Ode Triunfal exalta
f) pelo facto de evidenciar três fases distintas.
7.


7. O masoquismo do poeta verifica-se quando ele pretende pôr em prática
g) em composições poéticas de um ritmo torrencial, a traduzir a euforia do “eu”.
8.


8. Walt Whitman foi sem dúvida o seu modelo,
h) o sensacionismo levado ao paroxismo, desejando até ser triturado pelas máquinas.
9.


9. A angústia existencial volta ao poeta
i) no que diz respeito ao excesso violento de sensações.
10.


10. Na fase intimista, Álvaro de Campos apresenta
j) a sociedade industrial e cosmopolita.



Tópicos de correcção
1.
1- heteronímia
2- Adolfo Casais Monteiro
3- psiquiátrico
4- histeroneurastenia
5- despersonalizar-se
6- simular
7- fingimento poético
8- heterónimos
9- personagens
10- criadoras
11- emoções
12- pensamento
13- pensamento
14- autónomas

2.
            1. d)
2. b)
3. f)
4. e)
5. g)
6. a)
7. c)
8. i)
9. h)
3.
           1. d)
           2. f)
           3. g)
           4. c)
           5. h)
           6. b)
           7. e)
           8. a)
4.
           1. e)
           2. f)
           3. d)
           4. g)
           5. a)
           6. j)
           7. h
           8. i)
          9. c)

         10. b)

OS MAIAS - Personagens da crónica de costumes

EÇA DE QUEIRÓS.  OS MAIAS

Personagens da crónica de costumes

Encontramos, no obra, um desfile de personagens, cuja caracterização nos permite classificá-las como personagens-tipo. Elas representam um determinado grupo social e funcionam como forma de criação da crónica de costumes. O que, de facto, interessa, nestas personagens, não são os elementos individualizantes, mas as suas características enquanto retrato de um determinado grupo e contexto social específico.
São de salientar, a este nível, as seguintes personagens:
·         Alencar, que simboliza o Ultra-Romantismo, por oposição ao Realismo e ao Naturalismo, defendidos por João da Ega. Atra­vés desta personagem, é criticada a estagnação intelectual portuguesa, fechada às ideias novas que floresciam no estrangeiro, e que se traduzia numa literatura sentimentalista e alheada da realidade, enraizada em valores tradicionais e obsoletos.
Autor de várias publicações, é um crítico severo da "Ideia Novíssima", isto é, do Naturalismo. Acérrimo defensor de uma democracia humanitária, refugia-se no romantismo político e no ideal de uma república presidida por génios e caracterizada pela fraternização dos povos, ao constatar o descrédito do romantismo literário.
Caracterizam-no a lealdade e a generosidade. Amigo de Pedro da Maia, vai funcionar como elemento referencial do passado de Carlos, enquanto memória da figura paterna.
·         Eusebiozinho representa as vítimas de uma educação tradicional portuguesa, em que imperam os valores morais atrofiantes e cadu­cos e um ensino que não desenvolve a agilidade física e a des­treza intelectual do indivíduo, mas que o aniquila e corrompe espi­ritualmente. Devido à educação que recebe (repare-se que Carlos da Maia é sujeito a um programa educacional completamente oposto) torna-se um indivíduo socialmente apagado e um fraco; incapaz de revelar uma atitude crítica ou analítica, manifesta­-se imaturo do ponto de vista afectivo, cobarde e influenciável. (deixa-se bater pela mulher e convive com prostitutas espanholas, em Sintra; torna-se amigo de Palma Cavalão).
Esta personagem serve ideologicamente os pressupostos naturalistas e a ideologia da obra, opondo-se a Carlos desde a mais tenra idade
·         O Conde de Gouvarinho é uma figura secundária d' Os Maias e inclui-se no painel que caracteriza o espaço social, na obra, ao nível das personagens-tipo.
Representa o Portugal velho e conservador tão criticado por Eça. Politicamente incompetente, o conde de Gouvarinho sim­boliza, nesta obra, a imagem do homem mesquinho e medío­cre, que vive segundo as convenções sociais, apesar de um casamento atribulado. Avesso ao progresso, utiliza um discurso empolgado, mas vazio, e defende acerrimamente a cultura decadente como elemento conquistador e civilizacional dos povos das colónias. O que sobressai, fundamentalmente, desta personagem é a sua completa incapacidade de análise política e a sua inconsequente ausência de visão histórico, que se traduz, sobretudo, na sua futilidade mental e na sua vaidade extrema.
·         Steinbroken é a representação da impressão dos estrangeiros face à "complexidade" nacional. Não emite opiniões e assume-se como um observador um tanto confuso e distante do panorama nacional. A sua distância transparece no seu discurso, aliás, muito pouco extenso, em que predominam as expressões linguís­ticas que se caracterizam pela ausência de um significado con­creto, como é o caso da sua célebre afirmação: “C'est grave...”
·         Sousa Neto é um membro da Administração Pública. Caracteri­zam-no a falta de cultura (lembremo-nos da sua resposta a Ega, quando este, provocante, lhe perguntou se lera Proudhon), a sua incapacidade de análise e a sua vaidade social.
·         Jacob Cohen é o director do Banco Nacional e marido de Raquel, com quem João da Ega tem uma breve relação adúltera. Esta acaba, contudo, com a sua expulsão da residência Cohen, durante um baile de máscaras.
Cohen é o representante da alta finança nacional. É vaidoso e obtuso, por não perceber a relação de Ega com sua mulher, Raquel, nem a hipocrisia com que João da Ega o trata, por esse motivo.
Jacob Cohen simboliza a burguesia que se encontra em lugares de poder, sem, no entanto, possuir a inteligência e a flexibilidade mental para compreender e analisar o mundo que a rodeia. Não apresenta uma consciência forte do estado finan­ceiro do país e é dominado por uma certa inércia.
·         Taveira é o amigo da família Maia; frequenta os serões no Ramalhete e não faz nada. Esta figura pretende retratar, por excelência, a ociosidade da aristocracia nacional.
·         Dâmaso Salcede é a figura mais hedionda da obra. Concentra a vaidade imbecil, o egoísmo, a cobardia, a falta de integri­dade moral. A sua conduta é motivada pelo seu excessivo ego­centrismo e por uma visão deturpada da vida, enraizado em valores sociais imorais, que o fazem oscilar entre comportamen­tos antitéticos, mas sempre repreensíveis (pensemos na sua adu­lação a Carlos e consequente imitação e na traição mesquinha que, posteriormente, pratica ao publicar um artigo contra a reputação de Carlos da Maia n'A Corneta do Diabo). Dâmaso simboliza, pela deformação moral que apresenta, a maior vítima da sociedade portuguesa.
Fisicamente, é gordo, balofo, o que o torna muito pouco atractivo, ainda que, cego pelo seu narcisismo que toca a idiotia, se considere um excelente galã, muito apetecido pelas mulheres, por quem, aliás, não sabe ter consideração nem respeito
·         A Condessa de Gouvarinho e Raquel Cohen simbolizam as mulheres portuguesas, com uma educação romântica e um casamento pouco atraente, que procuram no adultério uma forma de dar algum interesse e emoção às suas vidas
ü  A Condessa de Gouvarinho é uma mulher fútil e vazia de pre­conceitos; apresenta uma paixão obsessiva por Carlos da Maia, com quem terá uma breve relação amorosa. Despreza o marido, não só pela sua mediocridade mas, fundamentalmente, pela sua precária situação económica que, bastas vezes, é coberta pelo pai desta. Simboliza a mulher que não encontra a felicidade no casamento e que procura a emoção e a motivação de viver fora dele.
ü  Raquel Cohen é uma mulher romântica e pouco motivada para a união com Jacob Cohen. Entrega-se à emoção de uma relação adúltera com João da Ega, a quem convence, com queixumes e lamúrias sobre o seu matrimónio infeliz, e que levam Ega, galhardamente, a tomar a sua defesa. Após a expulsão de Ega de sua casa, este vem a tomar consciência de que não passara de uma diversão quási balzaquiana e que Raquel Cohen, além de lhe mentir, amava o marido, do qual sentia violentos ciúmes, razão que, eventualmente, a levava a ter aventuras e a chamar a atenção do marido para a sua existência enquanto mulher.
·         Palma Cavalão e Neves representam o meio jornalístico deca­dente de Lisboa. Palma Cavalão, o director do jornal A Corneta do Diabo, é desonesto e encara o jornalismo como uma forma de ganhar dinheiro, deixando-se, para isso, corromper e subor­nar. Representa o jornalismo barato, escandaloso e sem escrú­pulos. Alcunhado de "Cavalão", ele simboliza a personagem traiçoeira e sem princípios, que tudo faz por dinheiro, sem qualquer preocupação com o seu semelhante. Considera-se o "amante latino", por excelência, das prostitutas espanholas. A associação destas duas facetas negativas torna-o mesquinho e cruel.
Neves, o director do jornal A Tarde, aproveita a sua situa­ção para influenciar politicamente os seus ouvintes/leitores ignorantes. Revela parcialidade, quando Ega lhe pede que publique a carta de Dâmaso em que este pede desculpas a Carlos, por pensar que se tratava de um amigo político com o mesmo nome. Contudo, depois de saber que a carta era, efecti­vamente, da autoria de Dâmaso Salcede e não de Dâmaso Gue­des (o seu amigo de lides políticas), acede a publicar o docu­mento e serve-se mesmo da carta para se vingar do "maganão" que os “entalara no eleição passada”, dando ordens para que a mesma fosse publicada na primeira página.
Conceição Jacinto, Gabriela Lança, Os Maias. Eca de Queirós.
Porto Editora. Colecção Estudar Português


OS MAIAS - O episódio do jantar no Hotel Central (capítulo VI)

OS MAIAS  de Eça de Queirós

O episódio do jantar no Hotel Central  (capítulo VI)



O capítulo onde está inserido o jantar no Hotel Central permite-nos perspectivar o Portugal contemporâneo d’Os Maias. O jantar em honra do banqueiro de prestígio, o Cohen, é um acontecimento eminentemente mundano; é particularmente rico pelo retrato crítico que Eça faz ao contexto político e cultural do seu tempo. Neste retrato assumem particular relevo dois aspectos fundamentais da vida da nação:
  • o cultural (mais propriamente a literatura)
  • o político.

Este jantar serve para propiciar um primeiro e alargado contacto de Carlos com o meio social lisboeta (com Cohen, Alencar, Dâmaso Salcede e outros)

1.Aliteratura:  Romantismo versus Realismo

Ao longo dos diálogos que se vão travando, assiste-se ao confronto entre duas linhas estéticas diferentes.
Þ    Das figuras presentes no jantar está Alencar, que representa o Romantismo, ou seja, a velha corrente literária (Cf. a descrição que nos transmite o narrador na p.159).
Alencar defende acerrimamente aquilo a que ele chama “moralidade”. Verifica-se nele um exagero da “moralização” ultra-romântica e uma consequente fuga ao real circundante.
Þ    Ega assume a defesa do Realismo e identifica-se com as modernas ideias. Afinidade entre Ega e Eça de Queirós. Porém, verifica-se uma distorção das teses naturalistas (Cf. p.164)
Þ    O Realismo é encarado negativamente por Carlos.
Þ    A partir da p.162, surge entre os convivas presentes no jantar o conflito protagonizado por Alencar e Ega, que promovem um episódio de diversão, quer pela linguagem desbragada que usam, quer pela sua atitude indecorosa (troca de ameaças, tanto mais que se encontram num lugar de prestígio social) (Cf. pp.172-175)
Þ    Problemática da crítica literária e do seu cânone específico. Dois vícios fundamentais da crítica literária de conotações académicas:
v  A mera preocupação com questões de natureza formal em detrimento da dimensão temática e verdadeiramente poética da literatura em análise.
v  A pura obsessão com o plágio, interpretando assim uma atitude de tipo policial que nada tinha que ver com valoração estética. (Cf. intervenção de Alencar, p.172)
Þ    A polémica literária toma depois outro rumo: esgotados os argumentos expostos, só resta o ataque pessoal, totalmente arredado da essência das questões abordadas (Cf. p.174). Isto confirma a ideia de que Alencar vale mais como representante de uma mentalidade de certo modo generalizada do que como personagem individualizada e isolada. A discussão entre Ega e Alencar acaba como uma cena de pancada (Cf. p.174)

2.Apolítica de Estado

Þ    É explícita a crítica à política financeira praticada pelos ministérios (Cf. p.165: “A única ocupação...)
Þ    Quem faz a política são os políticos e por isso são os principais causadores do panorama de individualismo, corrupção e má gestão que se vive em Portugal. Na obra, a classe política é caracterizada como sendo um grupo de “medíocres” e “patetas”. Estes são o reflexo de um país desacreditado. Podemos verificar, no discurso empolgado de Ega, essa viva crítica aos políticos da época, por ele genericamente tratados por “colecção grotesca de bestas” (Cf. p.166). Porém, na tentativa de não desprestigiar Cohen – político homenageado no jantar – Ega modera as suas afirmações, admitindo que “também há homens de grande valor!” (Cf. p.166)
Þ    Ega introduz a temática das finanças portuguesas e todos se vão divertindo com as explicações de Cohen acerca de como se faz uma bancarrota (Cf. p.165). Uma vez lançado o tema, este serve de pretexto para diversão geral, como se as finanças públicas fossem assunto de somenos importância. Discute-se afinal entre as personagens, de modo frio e calculista, as desastrosas consequências da gestão ministerial empenhada em levar o país à ruína.
Þ    Cf. pp. 167-168 → O sentimento patriótico não é levado a sério.  O patriotismo, tão defendido pelos antigos heróis nacionais, é desmistificado de forma irónica, tornando inútil o esforço daqueles que, ao longo dos tempos, se bateram pela independência nacional.
Ressalva-se a “paixão patriótica” de Alencar, paradigma do sentimento romântico que parece desaparecer. Apesar das críticas à estética romântica, na obra representada pelo Alencar, esta personagem assume aparentemente a defesa dos valores patrióticos e da coerência dos princípios que defende. (Cf. p.166)
Þ    Dâmaso, porém, contrasta vivamente, representando de forma irónico-crítica a mesquinhez e a cobardia que grassam no Portugal do século XIX. (Cf. p. 169)
Þ    Em vários pontos da obra Os Maias, o processo irónico eciano incide sobre o sentimento generalizado, transmitido por algumas personagens e pelo próprio narrador, de que é necessário importar costumes: tudo o que é português é antigo e velho, tudo o que é estrangeiro é simplesmente “chic”.
Cf. p.158 → fala de Dâmaso → estas palavras de Dâmaso espelham precisamente o sentimento criticado de que Portugal não presta.  Isto sucede, não pela ausência de valores nacionais, que definem a raça, mas porque os portugueses os desvalorizam em favor do que é estrangeiro.
A intervenção de Dâmaso constitui mais um dos momentos divertidos do jantar, onde ele pode dar asas à sua vaidade e futilidade, falando dos pormenores das suas viagens, exibindo uma predilecção pelo estrangeiro.
Þ    Contrariamente à consciência que Eça revela dos problemas do seu tempo, as personagens da sua ficção terminam, de forma inconsequente, o jantar e as discussões, totalmente alheadas, revelando inconsciência relativamente aos problemas e soluções para o país. E, por entre exaltações de espanholadas e “menus” à francesa, o jantar acaba num clima despreocupado de alegria. (Cf. p.171)


Em última análise, o que todo este episódio do jantar do Hotel Central representa é o esforço frustrado de uma certa camada social (por ironia a mais destacada) para assumir um comportamento digno e requintado. Só que (à parte algumas excepções) a realidade dos factos vem ao de cima; que o mesmo é dizer: as limitações culturais e morais não se ocultam à custa de ementas afrancesadas, divãs de marroquim e ramos de camélias.




Temática
Crítica
Literatura


• Oposição entre o Romantismo e o Realismo
• Estagnação da cultura em Portugal



Política
• Independência de Portugal
• Políticos
• Finanças públicas

• Falta de patriotismo
• Incompetência da classe
• Queda financeira do país



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