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21/09/2014

Fernando pessoa Heterónimos : Álvaro de Campos

Álvaro de Campos



Álvaro de Campos surge quando Fernando Pessoa sente “um impulso para escrever”. O próprio Pessoa considera que Campos se encontra no «extremo oposto, inteiramente oposto, a Ricardo Reis”, apesar de ser como este um discípulo de Caeiro.
Campos é o “filho indisciplinado da sensação e para ele a sensação é tudo. O sensacionismo faz da sensação a realidade da vida e a base da arte. O eu do poeta tenta integrar e unificar tudo o que tem ou teve existência ou possibilidade de existir.
Este heterónimo aprende de Caeiro a urgência de sentir, mas não lhe basta a «sensação das coisas como são»: procura a totalização das sensações e das percepções conforme as sente, ou como ele próprio afirma “sentir tudo de todas as maneiras”.
Engenheiro naval e viajante, Álvaro de Campos é figurado “biograficamente” por Pessoa como vanguardista e cosmopolita, espelhando-se este seu perfil particularmente nos poemas em que exalta, em tom futurista, a civilização moderna e os valores do progresso.
Cantor do mundo moderno, o poeta procura incessantemente “sentir tudo de todas as maneiras”, seja a força explosiva dos mecanismos, seja a velocidade, seja o próprio desejo de partir. “Poeta da modernidade”, Campos tanto celebra, em poemas de estilo torrencial, amplo, delirante e até violento, a civilização industrial e mecânica, como expressa o desencanto do quotidiano citadino, adoptando sempre o ponto de vista do homem da cidade.
O drama de Álvaro Campos concretiza-se num apelo dilacerante entre o amor do mundo e da humanidade; é uma espécie de frustração total feita de incapacidade de unificar em si pensamento e sentimento, mundo exterior e mundo interior. Revela, como Pessoa, a mesma inadaptação à existência e a mesma demissão da personalidade íntegra., o cepticismo, a dor de pensar e a nostalgia da infância.

 

Biografia

·        Nasce em Tavira, em 1890
·        Estuda engenharia mecânica e naval na Escócia
·        “Filho indisciplinado da sensação e para ele a sensação é tudo. O sensacionismo faz da sensação a realidade da vida e a base da arte.”
·        “Sentir tudo de todas as maneiras”
·        Vanguardista e cosmopolita
·        Único heterónimo que comparticipa da vida extra literária de Fernando Pessoa heterónimo


Fases

     Primeira – decadentismo (1914)
Eprime o tédio, o cansaço e a necessidade de novas sensações (“Opiário”); o decadentismo surge como uma atitude estética finissecular que exprime o tédio, o enfado, a náusea, o cansaço, o abatimento e a necessidade de novas sensações. Traduz a falta de um sentido para a vida e a necessidade de fuga à monotonia. Com rebuscamento, preciosismo, símbolos e imagens apresenta-se marcado pelo Romantismo e pelo Simbolismo.
·       Tédio, cansaço, necessidade de novas sensações
·       Falta de um sentido para a vida
·       Romantismo e simbolismo
·       Nostalgia
·       Saturação
·       Embriaguez do ópio
·       Horror à vida
·       Realismo satírico
·       Vocabulário precioso e vulgar
·       Imagens
·       Símbolos
·       Estilo confessional brusco
·       Decassílabos agrupados em quadras
·       “Opiário “

Segunda – Futurismo (1914 a 1916)
Nesta fase, Álvaro de Campos celebra o triunfo da máquina, da energia mecânica e da civilização moderna. Sente-se nos poemas uma atracção quase erótica pelas máquinas, símbolo da vida moderna. Campos apresenta a beleza dos “maquinismos em fúria” e da força da máquina por oposição à beleza tradicionalmente concebida. Exalta o progresso técnico, essa “nova revelação metálica e dinâmica de Deus”. A “Ode Triunfal” ou a “Ode Marítima” são bem o exemplo desta intensidade e totalização das sensações. A par da paixão pela máquina, há a náusea, a neurastenia provocada pela poluição física e moral da vida moderna.
·        Elogio da civilização industrial e da técnica
·        Triunfo da máquina, beleza dos “maquinistas em fúria”
·        Intelectualização das sensações, delírio sensorial
·        Não aristotélica
·        Sado masoquismo
·        Cantar lúcido do mundo moderno
·        Influência de Walt Whitman
·        Vertigem das sensações modernas
·        Volúpia da imaginação
·        Hipertrofia ilimitada do eu
·        Energia explosiva
·        Impulsos inconscientes
·        Verso livre, longo
·        Estilo esfuziante, torrencial
·        Anáforas, exclamações, interjeições, apóstrofes e enumerações
·        Fantasia verbal
·        Volúpia de ser objecto
·        Vítima
·        Dispersão
·        “Ode triunfal”

Terceira fase –  pessoal ou intimista (1916 a 1935)
Perante a incapacidade das realizações, traz de volta o abatimento, que provoca “Um supremíssimo cansaço, /íssimo, íssimo, íssimo, /Cansaço…”. Nesta fase, Campos sente-se vazio, um marginal, um incompreendido. Sofre fechado em si mesmo, angustiado e cansado. (“Esta velha angústia”; “Apontamento”; “Lisbon revisited”).
·       Melancolia
·       Devaneio
·       Cosmopolitismo
·       Cepticismo
·       Dor de pensar
·       Saudades da Infância ou do Irreal
·       Dissolução do eu
·       Conflito entre a realidade e o poeta
·       Cansaço, tédio e abulia
·       Angustia existencial
·       Solidão
·       “Aniversário” e a “Tabacaria”


Traços da sua poesia

·        Poeta modernista
·        Poeta sensacionista
·        Cultor das sensações sem limite
·        Poeta de verso livre
·        Poeta de angustia existencial e da auto ironia

Traços estilísticos

·        Verso livre em geral muito longo
·        Assonâncias, onomatopeias, aliterações
·        Grafismos expressivos
·        Mistura de níveis de língua
·        Enumerações excessivas, exclamações, interjeições e pontuação emotiva
·        Desvios sintácticos
·        Estrangeirismos e neologismos
·        Subordinação de fonemas
·        Construções nominais, infinitivas e gerundivas
·        Metáforas ousadas, oximoros,  personificações, hipérboles
·        Estética não aristélica na fase futurista.


Quadro-Síntese:
Temáticas
Estilísticas


-         Apologia da civilização mecânica, da indústria, da técnica (futurismo e sensacionismo): tentativa de romper com o subjectivismo da lírica tradicional
-         Atitude escandalosa, chocante: trangressão de uma atitude moral estabeleciada
-         Traços de anti-filosofia e anti-poesia
-         Sadismo e masoquismo
-         Ilusão: sonho; retorno impossível à infância; viagem
-         Mais evolutivo que qualquer dos outros heterónimos (três fases)
-         Última fase: conflito realidade/poeta: cansaço existencial, náusea, tédio, abulia; estranheza da realidade solidão; isolamento; dissolução do “eu”; ritmo lento


-         Exclamação, apóstrofe repetida, interjeição, gradação (ascendente e descendente)
-         Repetição, simetria de construção, assonância, aliteração, rima interior, enumeração desordenada, polissíndeto
-         Construções nominais e infinitivas
-         Verso livre e, em geral, muito longo ( duas ou três linhas) e com encavalgamento
-         Onomatopeia
-         Grafismo inovador
-         Oxímoro
-         Uso expressivo da pontuação: exclamação, interrogação, reticências
-         Estrangeirismos, neologismos e susbstantivação de fonemas
-         Metáfora, personificação e hipérbole









Mensagem

Contextualização
q  Integração de Mensagem no universo poético Pessoano:
Integra-se na corrente modernista, transmitindo uma visão épico-lírica do destino português, nela se salientando o Sebastianismo, o Mito do Encoberto e o V Império.

Criar um novo Portugal, ou melhor, ressuscitar a Pátria Portuguesa, arrancando-a do túmulo onde a sepultaram alguns séculos de obscuridade (...) E isto leva a crer que deve estar para breve o inevitável aparecimento do poeta ou poetas supremos [...] porque fatalmente o Grande Poeta, que este movimento gerará, deslocará para segundo plano a figura até aqui principal de Camões

            A citação transcrita aponta, logo de início, para o estado de desagregação em que se encontra a Nação portuguesa e que, de algum modo, fará despoletar a ânsia de renovação desejada por Fernado Pessoa e operacionalizada nos textos da Mensagem.
            Fernando Pessoa acreditava que, através dos seus textos, poderia despertar as consciências e fazê-las acreditar e desejar a grandeza outrora vivenciada. Espera poder contribuir parar o reerguer da Pátria, relembrando, nas 1ª e 2ª partes da Mensagem, o passado histórico grandioso e anunciando a vinda do Encoberto (3ª parte), na figura mítica de D. Sebastião, que anunciaria o advento do Quinto Império.
            Preconizava para Portugal a construção de um novo império, espiritual, capaz de elevar os Portugueses ao lugar de destaque que outrora ocuparam a nível mundial. Esta projecção ficar-se-ia a dever a um “poeta ou poetas supremos” que, pela sua genialidade, colocariam Portugal, um país culturalmente evoluído, como líder de todos os outros.
            Na realidade, Fernando Pessoa antevê a possibilidade da supremacia de Portugal, não em termos materiais, como no tempo de Camões, mas em termos espirituais É nesta nova concepção de Império que assenta o carácter simbólico e mítico que enforma a epopeia pessoana e que, inevitavelmente, destacará a figura deste superpoeta, em detrimento da de Camões.


O Sebastianismo
            O sebastianismo é um mito nacional de tipo religioso.
«D. Sebastião voltará, diz a lenda, por uma manhã de névoa, no seu cavalo branco...»
O sebastianismo, fundamentalmente, o que é? É um movimento religioso, feito em volta duma figura nacional, no sentido dum mito. No sentido simbólico D. Sebastião é Portugal: Portugal que perdeu a sua grandeza com D. Sebastião, e que só voltará a tê-la com o regresso dele, regresso simbólico ( como, por um mistério espantoso e divino, a própria vida dele fora simbólica ( mas em que não é absurdo confiar. D. Sebastião voltará, diz a lenda, por uma manhã de névoa, no seu cavalo branco, vindo da ilha longínqua onde esteve esperando a hora da volta. A manhã de névoa indica, evidentemente, um renascimento anuviado por elementos de decadência, por restos da Noite onde viveu a nacionalidade.

ü  D. Sebastião não morreu porque os símbolos não morrem. O desaparecimento físico de D. Sebastião proporciona a libertação da alma portuguesa.

ü  D. Sebastião aparece cinco vezes explicitamente na Mensagem (uma vez nas Quinas, outra em Mar português e três vezes nos Símbolos).
Aliás, pode mesmo dizer-se que o Brasão e o Mar português são a preparação para a chegada do Encoberto, na sua qualidade de Messias de Portugal.

D. Sebastião faz uma espécie de elogio da loucura (condenação da matéria e sublimação do espírito)

A vinda do Encoberto era apenas por ele encarada «no seu alto sentido simbólico» e não literal, como faziam os Sebastianistas tradicionais, de quem toma distância, e que esse Desejado não seria mais do que um «estimulador de almas
            O Quinto Império era afinal «o Império Português, subordinado ao espírito definido pela língua portuguesa
O Quinto Império será «cultural», ou não será. E se diz, como Vieira, que o Império será português, isso significa que Portugal desempenhará um papel determinante na difusão dessa ideia apolínea e órfica do homem que toda a sua obra proclama.


Os Símbolos e os Mitos
q  Estrutura simbólica de Mensagem
Mensagem é a expressão poética dos mitos – não se trata de uma narrativa sobre os grandes feitos dos portugueses no passado, como em Os Lusíadas, mas sim, de um cantar de um Império de teor espiritual, da construção de uma supra-nação, através da ligação ocidente/oriente: não são os factos históricos propriamente ditos sobre os nossos reis que mais importam; são sim as suas atitudes e o que eles representam, sendo o assunto de Mensagem a essência de Portugal e a sua missão a cumprir. Daí se interpretem as figuras dos reis nos poemas de Mensagem como heróis mas mais que isso, como símbolos, de diferentes significados.

O três é um número que exprime a ordem intelectual e espiritual (o cosmos no homem). O 3 é a soma do um (céu) e do dois (a Terra). Trata-se da manifestação da divindade, é a manifestação da perfeição, da totalidade.

O sete assume também uma extrema relevância, senão vejamos, sete foram os Castelos que D. Afonso III conquistou aos mouros, sete são os poemas de Os Castelos .
O sete corresponde aos 7 dias da criação, assim como as 7 figuras evocadas são também as fundadoras da nacionalidade (Ulisses fundou Lisboa, Viriato uma nação, Conde D. Henrique um Condado, D. Dinis uma cultura, D. João uma dinastia, D. Tareja e D. Filipa fundaram duas dinastias). Pessoa manteve na sua obra a ideia do número sete como número da criação. O sete é o número da perfeição dinâmica. É o número de um ciclo completo.

O cinco está ligado às chagas de Cristo, às Quinas e aos cinco impérios sonhados por Nabucodonosar. Os quatro impérios já havidos foram a Grécia, roma, a Cristandade e a Europa pós-renascentista. Se o 5º império fosse material, Pessoa não teria dúvidas em apontar Inglaterra, mas como o 5º Império é o do ser, da essência, do imaterial, o poeta não tem dúvidas em apontar Portugal.

Também os nomes dados a cada parte e alguns nomes referidos nos poemas são também simbólicos:
       Brasão: o passado inalterável
       Campo: espaço de vida de de acção
       Castelo: refúgio e segurança
       Quinas: chagas de Cristo – dimensão espiritual
       Coroa: perfeição e poder
       Timbre: marca – sagração do herói para missão transcendente
       Grifo: terra e céu – criação de uma obra terrestre e celeste
       Mar: vida e morte; ponto de partida; reflexo do céu; princípio masculino
       Terra: casa do homem; espelho do céu; paraíso mítico; princípio feminino
       Padrão: marco; sinal de presença; obra da civilização cristã
       Mostrengo: o desconhecido; as lendas do mar; os obstáculos a vencer
       Nau: viagem; iniciação; aquisição de conhecimentos
       Ilha: refúgio espiritual; espaço de conquista; recompensa do sacrifício
       Noite: morte; tempo de inércia; tempo de germinação; certeza da vida
       Manhã: luz; felicidade; vida; o novo mundo
Nevoeiro: indefinição; promessa de vida; força criadora; novo dia

Síntese Temática da “Mensagem”
         O mito é tudo: sem ele a realidade não existe, pois é dele que ela parte
         Deus é o agente da história; ou seja, é ele quem tem as vontades; nós somos os seus instrumentos que realizam a sua vontade. É assim que a obra nasce e se atinge a perfeição
         O sonho é aquilo que dá vida ao homem: sem ele a vida não tem sentido e limita-se à mediocridade
         A verdadeira grandeza está na alma; É através do sonho e da vontade de lutar que se alcança a glória
         Portugal encontra-se num estado de decadência. Por isso, é necessário voltar a sonhar, voltar a arriscar, de modo a que se possa construir um outro império, um império que não se destrói, por não ser material: é o Quinto Império, o Império Civilizacional-Espiritual.
         D.Sebastião, além de ser o exemplo a seguir(pois deixa-se levar pela loucura/sonho), é também visto como o salvador, aquele que trará de novo a glória ao povo português e que virá completar o sonho, cumprindo-se assim Portugal.

A estrutura tripartida da “Mensagem”
1ª Parte – BRASÃO: o princípio da nacionalidade (em que fundadores e antepassados criaram a pátria)
ü  “Ulisses” – símbolo da renovação dos mitos: Ulisses de facto não existiu mas bastou a sua lenda para nos inspirar. A lenda, ao penetrar na realidade, faz o milagre de tornar a vida “cá em baixo” insignificante. É irrelevante que as figuras de quem o poeta se vai ocupar tenham tido ou não existência histórica! (“Sem existir nos bastou/Por não ter vindo foi vindo/E nos criou.”). O que importa é o que elas representam. Daí serem figuras incorpóreas, que servem para ilustrar o ideal de ser português.
ü  “D. Dinis” – símbolo da importância da poesia na construção do Mundo: Pessoa vê D. Dinis como o rei capaz de antever o futuro e interpreta isso através das suas acções – ele plantou o pinhal de Leiria, de onde foi retirada a madeira para as caravelas, e falou da “voz da terra ansiando pelo mar”, ou seja, do desejo de que a aventura ultrapasse a mediocridade.
ü  “D. Sebastião, rei de Portugal” – símbolo da loucura audaciosa e aventureira: o Homem sem a loucura não é nada; é simplesmente uma besta que nasce, procria e morre, sem viver! Ora, D. Sebastião, apesar de ter falhado o empreendimento épico, FOI em frente, e morreu por uma ideia de grandeza, e essa é a ideia que deve persistir, mesmo após sua morte (“Ficou meu ser que houve, não o que há./Minha loucura, outros que a tomem/Com o que nela ia.”)

2ª Parte – MAR PORTUGUÊS: a realização através do mar (em que heróis empossados da grande missão de descobrir foram construtores do grande destino da Nação)
ü  “O Infante” – símbolo do Homem universal, que realiza o sonho por vontade divina: ele reúne todas as qualidades, virtudes e valores para ser o intermediário entre os homens e Deus (“Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.”)
ü  “Mar Português” – símbolo do sofrimento por que passaram todos os portugueses: a construção de uma supra-nação, de uma Nação mítica implica o sacrifício do povo (“Ó mar salgado, quanto do teu sal/São lágrimas de Portugal!”)
ü  “O Mostrengo” – símbolo dos obstáculos, dos perigos e dos medos que os portugueses tiveram que enfrentar para realizar o seu sonho: revoltado por alguém usurpar os seus domínios, “O Mostrengo” é uma alegoria do medo, que tenta impedir os portugueses de completarem o seu destino (“Quem é que ousou entrar/Nas minhas cavernas que não desvendo,/Meus tectos negros do fim do mundo?”)

3ª Parte – O ENCOBERTO: a morte ou fim das energias latentes (é o novo ciclo que se anuncia que trará a regeneração e instaurará um novo tempo)
ü  “O Quinto Império” – símbolo da inquietação necessária ao progresso, assim como o sonho: não se pode ficar sentado à espera que as coisas aconteçam; há que ser ousado, curioso, corajoso e aventureiro; há que estar inquieto e descontente com o que se tem e o que se é! (“Triste de quem vive em casa/Contente com o seu lar/Sem um sonho, no erguer da asa.../Triste de quem é feliz!”) O Quinto Império de Pessoa é a mística certeza do vir a ser pela lição do ter sido, o Portugal-espírito, ente de cultura e esperança, tanto mais forte quanto a hora da decadência a estimula.
ü  “Nevoeiro” – símbolo da nossa confusão, do estado caótico em que nos encontramos, tanto como um Estado, como emocionalmente, mentalmente, etc.: algo ficou consubstanciado, pois temos o desejo de voltarmos a ser o que éramos (“(Que ânsia distante perto chora?)”), mas não temos os meios (“Nem rei nem lei, nem paz nem guerra...”)

O carácter épico-lírico
-          Lírico
§ Forma fragmentária
§ Atitude introspectiva
§ A interiorização
§ O simbolismo (3ªparte)
-    Épico:
§ O tom heróico (“O Monstrengo”)

§ A evocação da história Trágico-Marítima (2ªparte)´

Fernando Pessoa Ortónimo

Características temáticas

-          Identidade perdida e incapacidade de definição
-          Consciência do absurdo da existência
-          Para ele a realidade não é apenas aquilo que se vê superficialmente
-          Tensão sinceridade / fingimento, consciência /inconsciência
-          Oposição: sentir / pensar, pensamento / vontade, esperança 7 desilusão
-          Anti-sensacionismo: intelectualização da emoção
-          Estados negativos: solidão, cepticismo, tédio, angústia, cansaço, náuse, desespero
-          Inquietação metafísica
-          Neoplatismo
-    Tentativa de superação da dor, do presente, etc., através da evocação da infância, idade de ouro, onde a felicidade ficou perdida e onde não existia o doloroso sentir
-    refúgio no sonho, no ocultismo (correspondência entre o visível e o invisível)
-    criação dos heterónimos (“Sê plural como o Universo!”)
-    Intuição de um destino colectivo e épico para o seu País (Mensagem)
-    Renovador de mitos
-    a visão do mundo exterior é fabricada em função do sentimento interior
-    Reflexão sobre o problema do tempo como vivência e como factor de fragmentação do “eu”
-    O presente é o único tempo por ele experimentado (em cada momento se é diferente do que se foi)
-    Tem uma visão negativa e pessimista da existência; o futuro aumentará a sua angústia porque é o resultado de sucessivos presentes carregados de negatividade

Características estilísticas

-          simplicidade formal; rimas externas e internas; redondilha maior (gosto pelo popular) dá uma ideia de simplicidade e espontaneidade
-    Grande sensibilidade musical:
o   eufonia – harmonia de sons
o   aliterações, encavalgamentos, transportes, rimas, ritmo
o   verso geralmente curto (2 a 7 sílabas)
o   predomínio da quadra e da quintilha
-          Adjectivação expressiva
-          Economia de meios:
o   Linguagem sóbria e nobre – equilíbrio clássico
-          Pontuação emotiva
-          Uso frequente de frases nominais
-          Associações inesperadas [por vezes desvios sintácticos – enálage
-          Comparações, metáforas originais, oxímoros
-          Uso de símbolos
-          Reaproveitamento de símbolos tradicionais (água, rio, mar...)


Temáticas

ü  O sonho, a intersecção entre o sonho e a realidade (exemplo: Chuva oblíqua – “E os navios passam por dentro dos troncos das árvores);
ü  A angustia existencial e a nostalgia da infância (exemplo: Pobre velha música – “Recordo outro ouvir-te./Não sei se te ouvi/Nessa minha infância/Que me lembra em ti.” ;
ü  Distância entre o idealizado e o realizado – e a consequente frustração (“Tudo o que faço ou medito”);
ü  A máscara e o fingimento como elaboração mental dos conceitos que exprimem as emoções ou o que quer comunicar (“Autopsicografia”, verso “O poeta é um fingidor”);
ü  A intelectualização das emoções e dos sentimentos para a elaboração da arte (exemplo: Não sei quantas almas tenho – “O que julguei que senti”) ;
ü  O ocultismo e o hermetismo (exemplo: Eros e Psique)
ü  O sebastianismo (a que chamou o seu nacionalismo místico e a que deu forma na obra Mensagem;
ü  Tradução dos sentimentos nas linguagem do leitor, pois o que se sente é incomunicável.

Sinceridade/fingimento
- Intelectualização do sentimento para exprimir a arte -> poeta fingidor
            - despersonalização do poeta fingidor que fala e que se identifica com a própria criação poética
- uso da ironia para pôr tudo em causa, inclusive a própria sinceridade
            - Crítica de sinceridade ou teoria do fingimento está bem patente na união de contrários
            - Mentira: linguagem ideal da alma, pois usamos as palavras para traduzir emoções e pensamentos (incomunicável)

Consciência/inconsciência

            - Aumento da autoconsciência humana (despersonalização)
            - tentativa de resposta a várias inquietações que perturbam o poeta

Sentir/pensar
            - concilia o pensar e o sentir
            - nega o que as suas percepções lhe transmitem
            - recusa o mundo sensível, privilegiando o mundo intelegível
- Fragmentação do eu à interseccionismo entre o material e o sonho; a realidade e a idealidade; realidades psíquicas e fisicas; interiores e exteriores; sonhos e paisagens reais; espiritual e material; tempos e espaços; horizontalidade e verticalidade.

O tempo e a degradação: o regresso à infância
            - desencanto e angústia acompanham o sentido da brevidade da vida e da passagem dos dias
            - busca múltiplas emoções e abraça sonhos impossiveis, mas acaba “sem alegria nem aspirações”, inquieto, só e ansioso.
            - o passado pesa “como a realidade de nada” e o futuro “como a possibilidade de tudo”. O tempo é para ele um factor de desagregação na medida em que tudo é breve e efémero.
            - procura superar a angústia existencial através da evocação da infância e de saudade desse tempo feliz.

O tédio, o cansaço de viver
O poeta constata que não é ninguém, ele é nada – o sonho de ir mais além desaparece. Diz que não sabe nada, não sabe sentir, não sabe pensar, não sabe querer, ele é um livro que ficou por escrever. Ele é o tédio de si próprio: está cansado da sua vida, está cansado de si.


Poemas

- “Meu coração é 1 pórtico partido  - fragmentação do “eu”

- “Hora Absurda”       - fragmentação do “eu”
                                   - interseccionismo

- “Chuva Oblíqua”     - fragmentação do “eu”: o sujeito poético revela-se duplo, na busca de sensações que lhe permitem antever a felicidade ansiada, mas inacessível.
- interseccionismo impressionista: recria vivências que se interseccionam com outras que, por sua vez, dão origem a novas combinações de realidade/idealidade.


- “Autopsicografia”    - dialéctica entre o eu do escritor  e o eu poético, personalidade fictícia e criadora.
            - criação de 1 personalidade livre nos seus sentidos e emoções <> sinceridade de sentimentos
            - o poeta codifica o poema q o receptor descodifica à sua maneira, sem necessidade de encontrar a pessoa real do escritor
            - o acto poético apenas comunica 1 dor fingida, pois a dor real  continua no sujeito que tenta 1 representação.
            -  os leitores tendem a considerar uma dor que não é sua, mas que apreendem de acordo com a sua experiência de dor.    
            - A dor surge em 3 níveis: a dor real, a dor fingida e a “dor lida”
۰        A arte nasce da realidade
۰        A poesia consiste no fingimento dessa realidade: a dor fingida ou intelectualizada
۰        A intelectualização é expressa de forma tão artística que parece mais autêntica que a realidade
۰        Relação do leitor com a obra de arte:
¤        Não sente a dor real (inicial): essa pertence ao poeta
¤        Não sente a dor imaginária: essa pertence ao criador (poeta)
¤        Não sente a dor que ele (leitor) tem
¤        Sente o que o objecto artístico lhe desperta: uma quarta dor, a dor lida
۰        A obra é autónoma, quer em relação ao leitor, quer em relação ao autor (vale por si)
Há uma intelectualização da emoção: é recebido um estímulo (emoção) – dado pelo coração – que é intelectualizado – pela razão ; o que surge na criação são as emoções intelectualizadas. Ou seja, o pensar domina o sentir – a poesia é um acto intelectual

-         Ela canta pobre ceifeira – a ceifeira representa os sensacionistas e o seu canto seduz o poeta, que mesmo assim não consegue deixar de pensar; o poeta quer o impossível: ser inconsciente mas saber que o é, sentir sem deixar de pensar – o seu ideal de felicidade; acaba por verificar que só os sensacionistas são felizes, pois limitam-se a sentir, e tem então um desejo de aniquilamento; musicalidade produzida pelas aliterações, transporte, metáfora e quadra

-         Não sei se é sonho, se realidade – exprime um tensão entre o apelo do sonho (caracterizado pela tranquilidade, sossego, serenidade e afastamento) e o peso da realidade; a realidade fica sempre aquém do sonho e mesmo no sonho o mal permanece – frustração; conclui que a felicidade, a cura da dor de viver, de pensar, não se encontra no exterior mas no interior de cada um.

- Não sei quantas almas tenho – o poeta confessa a sua desfragmentação em múltiplos “eus”, revelando a sua dor de pensar, pque esta divisão provém do facto de ele intelectualizar as emoções; a sucessiva mudança leva-o a ser estranho de si mesmo (não reconhece aqueilo que escreveu); metáfora da vida como um livro: lê a sua própria história (despersonalização, distancia-se para se ver)


-         Entre o sono e o sonho - símbolo do rio: divisão, separação, fluír da vida – percurso da vida; é a imagem permanente da divisão e evidencia a incapacidade de alterar essa situação (o rio corre sem fim – efemeridade da vida); no presente, tal como no passado e no futuro (fatalidade), o eu está condenado à divisão porque condenado ao pensamento (se fosse inconsciente não pensava e por isso não havia possibilidade de haver divisão); tristeza, angústia por não poder fazer nada em relação à divisão que há dentro de si; metáfora da casa como a vida: o seu eu é uma casa com várias divisões – fragmentação

-         Bóiam leves, desatentos - poema apresenta um conjunto de elementos que sugerem indefinição e estagnação, estados que provocam o tédio e o cansaço de viver (“bóiam”, “sono”, “corpo morto”, folhas mortas”, águas paradas”, casa abandonada”); todos estes elementos apontam para a dor, a incapacidade de viver, a angústia, o tédio; os seus pensamentos andam como que à deriva, não têm onde ficar, pois ele é nada; são insignificantes, sem consistência, vagos, sem conteúdo; impossibilidade do sujeito saír do estado de estagnação em que se encontra (entre a vida e a não vida); musicalidade: transporte, anáfora (repetição duma palavra), ritmo (lento, parado – como ele)

-         Aqui na orla da praia, mudo e contente do mar - sujeito não quer desejar muito mais para além do que é natural e espontâneo na vida;  tudo aquilo a que o homem se pode agarrar é imperfeito e inútil (ex:amor); a melhor maneira de passar pela vida é não desejar, não se sentir atraído por nada (apatia, cansaço total); revela um certo desejo de morte porque já n quer nada; desejo de comunhão com a natureza


Fernando Pessoa conta e chora a insatisfação da alma humana. A sua precariedade, a sua limitação, a dor de pensar, a fome de se ultrapassar, a tristeza, a dor da alma humana que se sente incapaz de construir e que, comparando as possibilidades miseráveis com a ambição desmedida, desiste, adormece “num mar de sargaço” e dissipa a vida no tédio.
Os remédios para esse mal são o sonho, a evasão pela viagem, o refúgio na infância, a crença num mundo ideal e oculto, situado no passado, a aventura do Sebastianismo messiânico, o estoicismo de Ricardo Reis, etc.. Todos estes remédios são tentativas frustradas porque o mal é a própria natureza humana e o tempo a sua condição fatal. É uma poesia cheia de desesperos e de entusiasmos febris, de náusea, tédios e angústias iluminados por uma inteligência lúcida – febre de absoluto e insatisfação do relativo.

A poesia está não na dor experimentada ou sentida mas no fingimento dela, apesar do poeta partir da dor real “a dor que deveras sente”. Não há arte sem imaginação, sem que o real seja imaginado de maneira a exprimir-se artisticamente e ser concretizado em arte. Esta concretização opera na memória a dor inicial fazendo parecer a dor imaginada mais autêntica do que a dor real. Podemos chegar à conclusão de que há 4 dores: a real (inicial), a que o poeta imagina (finge), a dor real do leitor e a dor lida, ou seja, intelectualizada, que provém da interpretação do leitor.





Quadro-Síntese:
Temáticas
Estilísticas
Nível Fónico
Nível Morfossintático e semântico
-         Consciência do absurdo da existência, recusa da realidade, incapacidade de viver;
-         Oposições pensar/sentir, consciência/inconsciência, pensamento/vontade, esperança/desilusão

Conduzem a:
-         tédio; angustia; melancolia; desespero; náusea; nostalgia de bem perdido (tema da perda);  abdicação, desistência; abulia; dificuldade em distingir o sonho da realidade;
-         solidão, egotismo, cepticismo, anti-sentimentalismo;
-         inquietação metafísica, dor de pensar, dor de viver

Busca de superação através de:
-         evocação da infância (enquanto símbolo de uma felicidade);
-         ilusão no sonho;
-         ocultismo (procura de uma correspondência entre o visível e o invisível);
-         fingimento( enquanto alienação de si próprio, processo criativo e máscara) - heteronímia
-       musicalidade:
o versificação regular e tradicional (vertente tradicionalista: predomínio da quadra e da quintilha e do verso curto(duas a setes sílabas));
o rima, ritmo, aliteração, onomatopeia
o encavalgamento
-         linguagem sóbria e nobre;
-       expressividade dos modos e tempos verbais, com preferência pelo presente do indicativo;
-       equilíbrio clássico;
-       sintaxe simples;
-       adjectivação expressiva
-       paralelismos e repetições
-       uso de símbolos: reaproveitamento de símbolos tradicionais; passagem de uma imagem-símbolo nacional à reflexão sobre o símbolo;
-       imprevisibilidade: metáforas inesperadas; desarticulação sintática;
-       expressividade da pontuação; interrogações, exclamações, reticências;
-       uso de frases nominais;
-       metáforas, comparações e imagens;
-       antíteses;
-       paradoxos;
-       oxímoros

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